Começar de novo ou começar o novo?

"Nada vai embora sem antes ter nos ensinado o que precisamos saber". 

- Autoria atribuída a Pema Chödrön (*)

O que mais aprecio na internet consiste na possibilidade do encontro de novos amigos, digamos virtuais, cujos laços de amizade se fortalecem pelo que escrevemos e publicamos. Ou seja, se fortalecem pelo que nós nos deixamos ser vistos. Sendo esta exposição pública, de cada um, sempre crescente, penso ser algo realmente novo, cujo impacto vem se tornando tão intenso que, certamente, irá descartar muitos paradigmas dos tempos passados, mas que ainda são bastantes presentes nos tempos em que vivemos.

O que escrevo hoje tem como referência as postagens e escritos de um amigo que um dia resolveu encerrar um relacionamento afetivo, cujo status no Facebook era classificado por ele como estável. O encerramento se deu devido aos desencontros entre o que ele desejava como companheira e o que efetivamente a parceira do relacionamento era.

Não pensem que este dia de ruptura definitiva, até agora, aconteceu assim de repente. Em verdade, muitos e muitos outros dias foram apresentados como o dia da cisão. Fotos retiradas, status modificado, um novo caminho anunciado. Para logo depois, voltar ao status inicial. Tudo porque o desejo de ser feliz - com alguém ao qual ele já se entregara tantas vezes - teimosamente se projetava no objeto de devoção, a parceira repudiada e mais uma vez acolhida. Portanto, ensejando pretextos revisitados para uma nova oportunidade ao casal.

Quando escrevo no dia da 'ruptura definitiva' refiro-me ao momento em que o meu amigo se torna uma fonte inesgotável de textos que anunciam e exaltam o começar de novo.

Tenho lido alguns destes instigantes textos, publicados no mural do amigo, assim como alguns dos ecos que eles provocam. Neste contexto, na condição de eco - de algo refletido - sinto-me convidado a me aproximar do tema e, claro, mais ainda do escritor revelado pela ruptura. Em particular, no que parece ser o foco dos seus textos: o começar de novo e os discursos contemporâneos sobre este começar.

Os discursos do 'começar de novo' lembram, desculpe-me antecipadamente o atrevimento de também querer ajudar, receitas de autoajuda. Mas, poderão não ser, é claro, se explicitarmos o que significa 'começar de novo'.

Por exemplo, se você resolveu ser um jogador de xadrez e, em seguida, tendo levado uma grande surra, ou várias. Começar de novo, pode significar iniciar  uma nova partida e, tendo refletido sobre as razões da derrota, sentindo-se melhor preparado.

Neste caso, você não poderá esquecer por que perdeu. Ao contrário, deve ter evoluído a partir da reflexão sobre a derrota. Talvez seja isso o que é chamado de um olhar otimista para o futuro e que muitas vezes enseja repetições.

- Quem será o seu parceiro no jogo? Também é uma decisão sua. Inclusive, podendo mais uma vez ser o antigo parceiro.

Entretanto, possa ser que a sua reflexão lhe conduza a conclusão que jogar xadrez não é a sua praia; que não é gratificante ficar horas e mais horas estudando partidas dos grandes mestres do Jogo de xadrez, as chamadas entradas. E que ser jogador de xadrez, de fato, foi uma escolha à toa.

Você pode chegar a esse entendimento de imediato ou, voltando a jogar, se tornar o novo vencedor. Aí então, você perceberá que o angustiado agora é o seu parceiro no jogo de xadrez. Todavia, ele seguirá o seu exemplo e se preparará melhor, visando lhe vencer na próxima oportunidade. Assim, uma grande tensão será o resultado deste relacionamento. 

Noutra praia, você poderá enxergar outro jogo, este solidário, em que não há desejo de vitória, mas de continuidade do jogo; colaboração para que o outro jogue cada vez melhor. 

Então, você resolve escolher se dedicar a outra coisa. Entretanto, isso não é começar de novo, mas começar algo novo. Em termos religiosos, começar  por um novo caminho; despertar; se salvar; se iluminar.

Ou, em termos laicos, se libertar da ilusão de que o papel que você representava era idêntico a pessoa que você é. E, igualmente, se libertar da ilusão de que a projeção do seu desejo é igual à pessoa sobre a qual você o projetou.

Diria Sartre que o importante neste começar o novo é não esquecer a problemática da negação do nada. Ou, em termos simples, não esquecer a questão da má fé.

Quem sabe se não posso dizer em termos mais simples ainda e poéticos: lágrimas da ruptura, talvez não sejam para ser engolidas, mas para ser derramadas até não existirem mais.

Sobre a mesma questão, a minha avó diria algo mais ou menos assim: quando algo morre, devemos curtir o luto, até a última lágrima e, ai sim, estaremos preparados para começar algo novo.

Curtido o luto, não haverá espaço para soluções baseadas em carência do que foi perdido, nas soluções de substituições. Haverá sim, soluções novas para começar o novo.  

Nesta proposta, possa ser que você não tenha uma visão mais otimista do futuro. Todavia, certamente, terá uma visão mais próxima do que você realmente é, e do seu potencial para ser feliz.

Desejo tudo de bom e belo. Não só ao meu amigo escritor, assim como a todos os amigos dentro ou fora do Facebook.


Hiran  de Melo, Campina Grande, aos dez dias do mês das mães e das noivas, no ano de 2014.

(*) http://www.frasesdereflexao.com.br/frase/nada-vai-embora-sem-antes-ter-nos-ensinado-o-que-precisamos-saber/671