Conhecimento, bem maior

 

A educação é, certamente, a maior de todas as demandas de uma sociedade, a qualquer tempo. Pela via educacional se resolvem quase todas as dificuldades humanas, porquanto o conhecimento é, de fato, o mais valioso patrimônio de que se pode dispor. No Japão, apenas o professor tem a prerrogativa de passar pela frente do imperador sem lhe devotar atitude de submissão.

 

Os anos vinte e trinta do século XX foram significativos para a história do Brasil. No contexto internacional, agitava-se o mundo no esforço de superação da crise de 29. Internamente, deflagrava-se a implementação da República proclamada por Deodoro, especialmente com Getúlio chegando ao poder pela via ditatorial, disposto a mudar o perfil socioeconômico do País, para implantar a industrialização, com o que pretendia corrigir sucessivas impropriedades gerenciais praticadas na gestão pública.

 

No esforço de soerguimento nacional, intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil - 1936), Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala - 1933) e Caio Prado Júnior (Formação do Brasil Contemporâneo - 1942), mostraram, inequivocamente, a nossa verdadeira origem, fazendo surgir, em consequência, certo interesse pela Sociologia como disciplinas curricular, vislumbrando-se a possibilidade de que a escola brasileira fosse capaz de formar cidadãos, ao mesmo tempo em que deveria habilitar novos trabalhadores, com a qualificação profissional demandada pela nova realidade de mercado.

 

A sintonia getulista com a urgência e perenidade demandadas nas exigências educacionais recém surgidas no Brasil levou o primeiro mandatário a manter, na pasta da educação, por 11 anos seguidos, um único ministro a promover o crescimento e a requalificação da escola brasileira, sempre tão carente de compromisso efetivo com o futuro da nação.

 

Se o ministro de Vargas não chegou propriamente (na intensidade desejada) a imitar o esforço argentino na pessoa de Domingos Faustino Samiento, com vistas a um trabalho civilizatório, há de se reconhecer, pelo menos, o mérito de Capanema aqui implantar uma nova realidade escolar, capaz de garantir a cidadania necessária à preservação da dignidade do Brasil e seus cidadãos. Oito ou nove décadas depois, aparece em curso um grande esforço no sentido do desmoronamento de toda essa louvável construção.

 

Não bastasse o banimento da Sociologia como matéria curricular na escola secundária brasileira, no intervalo entre 1964 e 1985, eis que cogitam agora, e da forma ainda mais dissimulada, outra vez surrupiar do estudante de colégio a possibilidade de elaboração, por ele mesmo, da sua consciência crítica.

 

Querem trocar na grade curricular a Sociologia e a Filosofia pela tal educação moral e cívica, apesar de sua absoluta inutilidade, como já ficou demonstrado em experiência anterior.

 

A escola, infelizmente, nunca foi prioridade entre nós. Chegou com atraso de três séculos, nos cinco que  compõem a nossa história. A primeira universidade brasileira é de 1932, criada após a fragosos derrota sofrida pela elite paulistana, na revolução constitucionalista.

 

Os países asiáticos aí estão a mostrar o que significa crer na educação. Sem ela, não solução possível, individual ou coletivamente, incalculável é a perda. Ou o Brasil trata escola, estudante e professor como cada um deve ser tratado, ou converterá inapelavelmente o homem brasileiro em operário modelo, no processo de construção dessa sociedade de descerebrados, em que parece, paulatinamente, transformar-se o bicho homem nestes tempos ditos pós modernos.

 

Januário Bezerra
Administrador e escritor

 

Publicado originalmente em “Diário do Nordeste” - Opiniões.
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/

 

 

A sintonia getulista com a urgência e perenidade demandadas nas exigências educacionais recém surgidas no Brasil levou o primeiro mandatário a manter, na pasta da educação, por 11 anos seguidos, um único ministro a promover o crescimento e a requalificação da escola brasileira, sempre tão carente de compromisso efetivo com o futuro da nação.