Operação Triângulo

* Eleutério Nicolau da Conceição

 

 As três obediências maçônicas atuantes no estado de Santa Catarina convivem em clima de harmonia, havendo franca Intervisitação. Os três Grãos Mestres participam de cerimônias conjuntamente, como no Início do Ano Maçônico, Dia do Maçom e Homenagem à Semana da Pátria, entre outros eventos   que transcorrem no calendário dessas obediências regulares. Existe também uma loja especial jurisdicionada ao GOSC (Grande Oriente de Santa Catarina), União e Fraternidade do Mercosul, que se reúne apenas no período de janeiro a março de cada ano, sem quadro fixo de obreiros. Seu venerável Mestre pertence aos quadros do GOSC, mas os demais cargos  são exercidos por membros do GOBSC(Grande Oriente do Brasil em Santa Catarina) e da GLSC (Grande Loja de Santa Catarina), presentes à sessão, e os demais obreiros que compõem o quadro da loja são também filiados das diversas lojas jurisdicionadas  às obediências mencionadas ou vindos de outros orientes, que se congregam para participar de palestras de cunho maçônico e cultural.

Porém, é preciso que se diga, no passado, a situação era bastante diferente. Anteriormente à década de 1980, a visitação às lojas de diferentes obediências não era praticada, sendo mesmo desaconselhada, até proibida por alguns de seus dirigentes maiores.

Este estado de isolação começou a ser alterado pela atitude de duas lojas, consideradas rebeldes por suas obediências (visto que não aceitavam as recomendações isolacionistas). As administrações eleitas para o período 80/81 e 81/82, respectivamente nas Lojas Alferes Tiradentes e Januário Corte, sendo a primeira filiada à Grande Loja de Santa Catarina e a segunda ao Grande Oriente de Santa Catarina, encontram-se na origem dos procedimentos que, em seu desenvolvimento futuro, vieram a ser conhecidos como “Operação Triângulo”.

No planejamento da Loja Alferes Tiradentes para aquele período, constava o relacionamento amplo e sem restrições com outras lojas da capital.

Por outro lado, a Loja Januário Corte atravessava dificuldades, posto que havia deixado o templo da Loja Regeneração Catarinense e estava em construção do seu próprio na Rua Joe Colaço no bairro Córrego Grande.

Os Veneráveis empossados em ambas as Lojas eram jovens maçons, na Loja Alferes Tiradentes o ir:. Walter Pacheco Júnior, na Loja Januário Corte o ir:. Waldemiro Silveira Júnior. Ambos planejaram um esquema de intervisitação até então inédito na Maçonaria Catarinense. Logo em seguida o esquema de intervisitações passou-se  à fase de sessões conjuntas. Depois, irmãos da Loja Regeneração Catarinense sob a liderança de seu Venerável Mestre, irmão Aloysio Gonçalves de Oliveira oficial médico da Força Aérea, integraram-se ao ideal de convivência fraterna entre maçons, independentemente de suas origens obedienciais.   Durante os períodos administrativos  da Alferes Tiradentes  capitaneado pelos Irmãos Lonarte Sperling Veloso e  Ênio Flores Júnior, já com diversas outras lojas das duas demais obediências participando intensamente, o projeto foi se expandindo, e teve o seu coroamento efetivo, quando numa Sessão Magna de Iniciação brilhantemente conduzida pelo Irmão Ênio Flores Júnior, os Grãos Mestres das três Obediências, José Abelardo Lunardelli, Rubens Victor da Silva e Samuel Fonseca, estiveram presentes, sendo todos recebidos ritualisticamente de acordo com seus cargos e funções. Nessa mesma sessão o número de presentes foi tão significativo que se precisaram alocar cadeiras para reforçar colunas e oriente, no antigo templo da GLSC, nos altos do edifício do BRDE.

No ano de 1985  realizou-se em Florianópolis a primeira eleição para o executivo municipal após o término do período ditatorial, durante o qual  o cargo de prefeito era ocupado por indicação de Brasília. Entre os candidatos havia dois maçons, Francisco de Assis Filho, obreiro da Loja Alferes Tiradentes, e Ênio Branco, da loja Ordem e Trabalho, do GOBSC.  Decidiu-se então promover reuniões conjuntas dos obreiros das três obediências para oportunizar aos irmãos candidatos a apresentação de suas plataformas eleitorais aos seus pares, com o nome de “OPERAÇÃO TRIÂNGULO”. Assim, em reuniões promovidas pelas Lojas Alferes Tiradentes, Regeneração Catarinense e Fraternidade Catarinense, os dois irmãos foram ouvidos e questionados. Todas as sessões contaram com a presença de número significativo de irmãos, lotando as dependências dos templos onde foram realizadas. As três sessões, tiveram lugar  primeiro na Loja Regeneração Catarinense, a segunda na Loja Fraternidade Catarinense e a terceira na Alferes Tiradentes. O Grão Mestre de cada Obediência presidia a sessão que era  realizada em loja de sua jurisdição.

Ocupam o trono da Loja Alferes Tiradentes: da esquerda para a direita: 
Manoel Gomes. Samuel Fonseca, José Abelardo Lunardelli, Rubens Victor da Silva e José Wellington Machado Cavalcanti, Venerável Mestre da Alferes Tiradentes à época
 
Na divulgação da Operação Triângulo a Loja Alferes Tiradentes lançou a CONCLAMAÇÃO aos Maçons e na terceira e histórica sessão, realizada no 12o andar do edifício do BRDE, cito à Avenida Hercílio Luz, foi assinada a PROCLAMAÇÃO AO POVO MAÇÔNICO, primeiro documento assinado conjuntamente pelos Grãos Mestres José Abelardo Lunardelli, da Grande Loja de Santa Catarina (GLSC);  Rubens Victor da Silva do Grande Oriente do Brasil em Santa Catarina (à época chamado de GOESC: Grande Oriente do Estado de Santa Catarina) e Samuel Fonseca, do Grande Oriente de Santa Catarina (GOSC). O texto do pronunciamento registrava:
 

A Maçonaria de Santa Catarina, representada pelo Grande Oriente do Estado de Santa Catarina, Grande Oriente de Santa Catarina e Grande loja de Santa Catarina, Potências  Maçônicas irmãs pela TRADIÇÃO, pela CONSCIÊNCIA, pela IDENTIDADE DE OBJETIVOS, pela UNIDADE DE PENSAMENTO, pela coesão de SENTIMENTO, pelo passado histórico e pelo ANSEIO de todos os irmãos, se unem novamente para levar indistintamente aos irmãos uma mensagem de respeito às nossas tradições e de fé no nosso futuro.

Proclamamos que de forma unida e coordenada poderemos desenvolver ações mais eficazes e  de resultados mais rápidos.

Que de forma unida e coordenada elevaremos a patamares ainda mais dignos e altaneiro o nome da SUBLIME INSTITUIÇÃO, que adotamos como padrão de vida, regra de conduta e código moral.

Que somente de forma unida e coordenada as Potências terão seu real valor e razão de existência.

Que somente de forma unida e coordenada as Potências reviveremos  o nosso glorioso e histórico passado., para que o momento presente seja no futuro festejado pelos maçons do século XXI, pelos filhos de nossos filhos, como de claridade, de sabedoria, de determinação, de entusiasmo, e de idealismo.

Sabemos todos que o sentimento de FRATERNIDADE, de  LIBERDADE e de IGUALDADE, bem como a própria evolução da sociedade e a marcha dos acontecimentos dispensam convencionalismos de quaisquer espécies, razão porque ficam todas as lojas e maçons de Santa Catarina convocados para uma gigantesca cadeia de união, enfrentarmos com galhardia a nobre missão que nos compete realizar.

Ao encerrarmos o primeiro ciclo de reuniões conjuntas externamos todos os votos que eles se multipliquem, não somente pelo nosso desejo, mas também por ser o anseio e aspiração do POVO MAÇÔNICO, par maior glória do G.·. A.·. D.·. U.·.


Dado e traçado aos onze dias do mês de outubro do ano de hum mil novecentos e oitenta e cinco da E:. V:. , em Sessão Magna especial da Loja Alferes Tiradentes, Florianópolis, estado de Santa Catarina”. 

Assinam os Grãos Mestres José Abelardo Lunardelli, Rubens Victor da Silva e Samuel Fonseca.

 

 
 Os Grãos Mestres Rubens Victor da Silva, José Abelardo Lunardelli e
 Samuel Fonseca na Sala dos Passos Perdidos da  Aug.·. e Resp.·.  Loj.·.  Alferes Tiradentes.
 
Fac-símile da histórica proclamação
 

Nenhum dos dois irmãos candidatos teve sucesso em seu pleito, (talvez devido à fragmentação do voto maçônico entre os dois candidatos e à liberdade de consciência defendida pela Instituição maçônica, que incita seus obreiros a votarem no candidato de sua preferência), mas  a Operação Triângulo firmou os laços de fraternidade entre as três obediências maçônicas. Multiplicaram-se as sessões conjuntas, chegando os três Grãos Mestres a se reunir regulamente, a partir daquela data, para tratar de assuntos de interesse comum, em um movimento que teve repercussão nacional, apontado por todos como exemplo de ideal de convivência maçônica. Nos anos seguintes o processo teve continuidade, com os Grãos Mestres José Abelardo Lunardelli (em segundo mandato),  Elmo Bittencourt, do GOESC e José Carlos Pacheco, do GOSC.

Em sessão especial, a loja Alferes Tiradentes concedeu o título de Membro Honorário de seus quadros aos Grãos Mestres José Abelardo Lunardelli, Elmo Bittencourt e José Carlos Pacheco.

 
Os Grãos Mestres Elmo Bittencourt e José Carlos Pacheco.
 

Outros veneráveis e outros irmãos também tiveram iniciativas ou mesmo deram continuidade ao processo de intervisitação e realização de sessões conjuntas e até as obediências começaram a trocar os seus Boletins, distribuídos em suas respectivas lojas.

Como seguimento especial do ideal de fraternidade despertado por este movimento, o Ir:. Getúlio Corrêa (mais tarde Grão Mestre do GOSC), com os oficiais maçons da PMSC e de Maçons das lojas sediadas em Florianópolis, organizaram posteriormente a maior Sessão Maçônica já realizada no Estado de Santa Catarina, num Trabalho de Mesa levado a efeito no Salão Nobre do Quartel Geral da Polícia Militar, que se chamou de A PRIMEIRA ASSEMBLÉIA GERAL DA FRATERNIDADE. O sucesso especial alcançado por essa sessão deveu-se à especial atuação dos irmãos Getúlio Correa, Hamilton Pacheco da Rosa e Ib Silva, todos oficiais  da Polícia Militar.

Também em decorrência dessa convivência fraterna, começou-se a realizar conjuntamente, sessão especial  em homenagem à Semana da Pátria, em data próxima ao 7 de setembro. Essa festividade tem estado sob a responsabilidade de cada uma das obediências maçônicas, rotativamente e tem sido realizada todos os anos, em sessão aberta ao público contando sempre com a presença de obreiros filiados às três obediências, suas famílias e convidados especiais..

Podemos computar também como fruto sazonado dessa vivência fraterna a Fundação Hermon, braço social da maçonaria catarinense, mantida por lojas das três Potências, e dirigida por irmãos a elas jurisdicionados. Essa fundação tem desenvolvido vários programas no campo da assistência social, mantendo creches e centros para tratamento e recuperação de dependentes químicos, entre outras atividades.

O tempo encarregou-se de demonstrar o acerto daquelas ousadas decisões iniciais. Hoje, mesmo antigos detratores daqueles eventos, reconhecem seu valor e consequências positivas, e buscam inserir-se entre os inspiradores daquele histórico movimento. A operação Triângulo não se extinguiu, pois a convivência fraterna entre as três obediências catarinenses que até hoje se verifica (temos até, em várias cidades do estado, templos que em diferentes dias são utilizados por lojas jurisdicionadas a diferentes obediências), é decorrente daqueles eventos iniciais e pode ser entendida como sua continuidade.

 Este texto foi redigido com objetivo de registrar aquele momento histórico, esclarecendo seus objetivos e nomeando seus principais agentes, antes que o tempo promova seu esquecimento, e na dubiedade das brumas do passado, confundam-se figuras e acontecimentos e se venha a referenciar personagens e circunstâncias indevidas e inexistentes.

* Eleutério Nicolau da Conceição

O autor, iniciado em 1984, utilizou como referências, anotações e memórias dos irmãos Lonarte Sperling Veloso e Walter Pacheco Jr., a quem agradece a contribuição.

 
 
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Sabemos todos que o sentimento de FRATERNIDADE, de  LIBERDADE e de IGUALDADE, bem como a própria evolução da sociedade e a marcha dos acontecimentos dispensam convencionalismos de quaisquer espécies, razão porque ficam todas as lojas e maçons de Santa Catarina convocados para uma gigantesca cadeia de união, enfrentarmos com galhardia a nobre missão que nos compete realizar".