A carta de Freud a Einstein – por que a guerra?

Em 1932, Freud recebeu um convite de Albert Einstein para uma troca aberta de correspondência. O tema colocado pelo físico era a guerra, e a questão, mais especificamente, era sobre a possibilidade de se desenvolver a psique humana de tal maneira que ela pudesse ser mais capaz de resistência às psicoses do ódio e da eliminação. O pai da psicanálise, já com 76 anos de idade, responde utilizando as categorias de sua recém-desenvolvida teoria das pulsões (Trieblehre), na qual Eros, que tudo tenta preservar, enfrenta a oposição de uma pulsão de agressão ou destruição, uma pulsão de morte (Todestrieb). O texto nos oferece não apenas as visões de Freud sobre a questão, mas também um breve resumo da aplicação da teoria psicanalítica no campo social. 

Einstein havia mencionado na primeira carta algo sobre a relação entre direito e poder (Gewalt, em alemão, que também pode ser traduzida como força ou violência). Freud toma então este tópico como ponto de partida de sua reflexão para mostrar que direito e poder, embora hoje opostos, são historicamente derivados um do outro. 

Nas hordas primitivas humanas, os conflitos de interesses eram resolvidos pela violência, assim como em todo o reino animal. Passados alguns milhares de anos, a força muscular deu lugar ao uso de ferramentas, de modo que o vencedor era aquele que tinha – e sabia manejar - as melhores armas. O objetivo da violência é fazer com que o adversário abdique de suas reivindicações, e isso é alcançado da forma mais completa quando se mata o oponente. A aniquilação total do oponente tem duas vantagens: evita que ele retome a querela e serve de exemplo para que outros não tomem o seu caminho. Preservar o oponente vivo, no entanto, pode também ter suas vantagens (como utilizá-lo no trabalho escravo, por exemplo), mas com um custo adicional: o de ter que se proteger constantemente contra uma tentativa de vingança por parte do derrotado, abrindo mão, assim, de um pouco da própria segurança. 

Esta era a situação original que deu origem ao direito. Os mais fracos, para se protegerem do arbítrio dos indivíduos mais fortes, se uniram. A violência é derrotada através do poder dos fracos organizados, o que representa o direito em oposição à força de alguns indivíduos fortes isolados: “L‘union fait la force”.[1] Se esta recente união, contudo, se desfizesse tão logo tivesse alcançado seu objetivo inicial de derrotar aquele indivíduo forte que tentou se apoderar do grupo, poderia em breve surgir outro indivíduo, tão forte quanto ele, e uma nova união teria que ser construída para se opor ao novo candidato a tirano. Esta união dos mais fracos, por isso, precisa ser permanente, duradoura. É necessário que haja um forte vínculo, um sentimento de comunidade, que mantenha este grupo coeso. 

Desde o princípio, contudo, esta nova comunidade também apresenta contradições internas. Fosse ela formada apenas por indivíduos dotados naturalmente da mesma força, as relações seriam mais simples. As leis do grupo determinam a parcela de liberdade da qual cada indivíduo deve abrir mão para tornar a vida comum possível, o que em um mundo ideal poderia estabilizar esta nova sociedade e oferecer condições justas e igualitárias a todos. A realidade, todavia, é bem diferente. Este grupo é composto por indivíduos dotados de forças e capacidades diferentes, homens e mulheres, idosos e crianças, o que resulta na divisão desta sociedade em classes sociais. Freud percebe, assim como Karl Marx, que o direito inicial desta comunidade se torna então expressão das relações de poder desiguais que existe em seu meio, que as leis são feitas pelos mais fortes e que pouco espaço sobra para os dominados e oprimidos. Cada uma das tendências opostas do tecido social busca estabelecer seus objetivos por mais ou menos direitos, e o resultado acaba sendo, de tempos em tempos, a guerra civil. 

A resolução de conflitos através da violência não foi eliminada nem mesmo dentro dessas comunidades que surgiram, inicialmente, justamente com este propósito. Por toda a história vemos uma série de cidades, povos, reinos e impérios em conflito uns com os outros. Alguns destes, como os romanos, ao invés de simplesmente aniquilar os adversários, os incorporavam para atingir uma unidade ainda maior, ou a chamada “pax romana”. Por mais paradoxal que possa parecer, é necessário admitir que a guerra pode ser um meio apropriado para se alcançar a chamada “paz eterna”, pois ela é capaz de alcançar uma unidade maior na qual um governo central pode tornar outras guerras impossíveis.[2] Esta nova unidade, todavia, também não é permanente, de modo que daqui se segue um sem-número de pequenas guerras que, em algumas ocasiões, resultam em conflitos de proporções ainda maiores. 

Uma prevenção segura da guerra só poderia acontecer, mesmo em nosso presente, se houvesse um poder central que fosse capaz de resolver todos os conflitos de interesse. E para isso seria necessário ainda duas condições: que tal instância superior fosse criada e que ela fosse investida do poder necessário para tal. Uma sem a outra seria ineficaz. Tal unidade pode ser conseguida, por vezes, ao se reivindicar ideais comuns, os quais teriam a capacidade de criar uma identificação entre os membros da comunidade e mantê-la coesa. Freud afirma já ter ouvido a previsão de que apenas se o modo de pensar dos bolcheviques for cabalmente implementado será possível colocar um fim a todas as guerras. Quanto a isso ele se mostra cético, afirmando que este objetivo está longe de ser alcançado e que, mesmo depois, isso poderia levar a terríveis guerras civis. A tentativa de substituir o poder real pelo poder das ideias ainda hoje está fadado ao fracasso. Não se pode esquecer que o direito era, anteriormente, violência crua, e que ainda não seria possível fazê-lo sem o uso da violência. 

Na carta anterior enviada por Einstein, o físico havia mencionado também como era fácil levar os homens à guerra. Pareceria haver uma certa força ou tendência que os levaria a se entusiasmarem com os conflitos, um apetite por ódio e aniquilamento. Freud afirma que esta tendência da qual Einstein suspeitava de fato existe. No homem estão presentes duas destas chamadas “pulsões” (“Triebe”, em alemão): uma busca conservar e unir todas as coisas, sendo chamada de erótica, no sentido do Eros da obra “O banquete”, de Platão. Ela é sexual, mas em um sentido mais amplo do que popularmente se entende por “sexual”. A outra pulsão busca tudo destruir, matar, sendo compreendida como uma pulsão de agressão, ou pulsão de morte. Estas pulsões são as explicações teóricas da oposição entre amor e ódio, da polaridade entre atração e repulsão. Isso não diz respeito, de forma alguma, a uma avaliação moral entre “bem” e “mal”, e não se deve perder de vista que uma quase nunca age de forma isolada da outra. Na função de autopreservação, por exemplo, podemos ver isso de maneira clara. Esta é certamente de natureza erótica, mas precisa ter à disposição também a agressão. Com a guerra também não é diferente. Quando os homens são levados aos conflitos, um sem número de motivações estão presentes, e entre eles certamente o prazer pela agressão e pela destruição. Diversas atrocidades da história e do nosso cotidiano corroboram sua existência. A combinação dessas tendências destrutivas com outras, eróticas ou ideais, por exemplo, facilitam sua satisfação, e parecem às vezes servir apenas de camuflagem a estas. A Inquisição, por exemplo, parece ter se servido de motivos nobres e espirituais apenas para encobrir os de destruição. 

Esta pulsão de destruição atua dentro de cada ser vivo e tem como objetivo trazer a vida ao estado da matéria inanimada. Ela tem, por isso, o nome de pulsão de morte, enquanto a pulsão erótica representa a tendência à vida. A pulsão de morte se torna pulsão de destruição à medida em que consegue ser aplicada, com a ajuda dos órgãos, aos objetos. O ser vivo mantém sua vida, por assim dizer, à medida que destrói aquilo que lhe é estranho. Mesmo depois desta aplicação aos objetos externos, parte da pulsão de morte ainda permanece ativa no interior deste ser, ocorrendo uma interiorização da pulsão de destruição. 

A psicanálise não vê como possível eliminar totalmente as tendências destrutivas dos seres humanos. Freud não acredita, por exemplo, que a agressividade humana possa ser abolida se, como supostamente teriam afirmado os bolcheviques[3], todas as necessidades materiais forem satisfeitas e a igualdade entre os membros da sociedade for instaurada. O ponto não é eliminar totalmente a agressividade, mas sim dar-lhe outros fins, evitando deste modo que ela encontre expressão na guerra. 

A partir desta doutrina das pulsões é possível então encontrar dois caminhos indiretos para tentar evitar a guerra. Se a prontidão para o conflito é uma saída para a pulsão de destruição, então é necessária a atuação de seu oponente, Eros. Tudo aquilo que cria sentimentos de ligação entre os homens tem efeito contra a guerra. Esta ligação pode ser de dois tipos: em relação a objetos de amor, mesmo não sendo sexual, e de identificação com o outro. 

Einstein também se queixa, na carta anterior, sobre o mal uso da autoridade. Freud afirma que faz parte da constituição inata dos seres humanos se dividirem em líderes e dependentes. Os últimos são a maior parte da humanidade, e precisam de uma autoridade que tome decisões por eles e aos quais eles se submetam incondicionalmente. Esta não é, obviamente, a situação ideal desejada por Freud. Esta seria a de uma comunidade de pessoas que submetessem sua pulsão de vida à ditadura da razão. Nada poderia unir mais a humanidade do que isso, mesmo que não houvesse sentimentos de ligação entre os homens, mas Freud reconhece isso apenas como uma esperança utópica. Os outros caminhos indiretos para evitar a guerra, embora mais palpáveis, também não prometem nenhuma vitória certa. 

Chegando ao final de sua reflexão, Freud se pergunta por que ele e Einstein se opõem tanto à guerra, e responde em nome de ambos: porque todo homem tem direito à sua própria vida, porque a guerra aniquila a vida de pessoas cheias de esperança, coloca os indivíduos em situações que lhes degradam, que lhes força a assassinar outros contra sua vontade, destrói materiais valiosos e resultados do trabalho humano, e muito mais. Além disso, a guerra hoje não mais permite nem mesmo alcançar o ideal do heroísmo, como acontecia no mundo antigo. A guerra contemporânea não permite mais que surjam guerreiros como Aquiles ou Heitor do mundo grego antigo. Não se deve, porém, condenar todo e qualquer tipo de guerra. Enquanto houver ricos e nações dispostos a aniquilar os outros, estes outros, oprimidos e objetos de seus ataques, devem estar armados e preparados para a guerra. 

O desenvolvimento da cultura é responsável por aquilo que de melhor nos tornamos enquanto seres humanos. Ele nos trouxe uma mudança psíquica estrutural e um deslocamento dos objetivos das pulsões e uma redução de sua capacidade de determinar nossas ações. Sensações, que antes nos eram prazerosas, hoje nos são indiferentes ou mesmo desagradáveis. Há razões orgânicas para que nossas exigências éticas e estéticas tenham se alterado. Os dois aspectos mais importantes do caráter psicológico da cultura é o fortalecimento do intelecto e a interiorização das inclinações agressivas. Desta maneira, tudo aquilo que fomenta o desenvolvimento da cultura também opera contra a guerra. 

Glauber Ataide

Fonte: https://glauberataide.blogspot.com/

Notas

[1] Nesta leitura histórica Freud se aproxima da posição de Nietzsche, que também afirma que os fracos se uniram para fazer frente aos fortes. Ver, por exemplo, “O anticristo”, de Nietzsche. 

[2] É uma posição que foi defendida também por Mao Tse-Tung, e já aparecia no hino da Internacional Socialista: “Bem unidos façamos desta luta a final”. É necessária uma última guerra para pôr fim a todas as outras. 

[3] É questionável se de fato os bolcheviques algum dia afirmaram isso.

"A verdade deve manifestar-se em nossos pensamentos, nossas palavras e nossas ações"
 
Mahatma Gandhi
"Jamais permita que os nós tapem a vista da janela, pois será através dela que enxergaremos a oportunidade dos laços!"

 

Áureo dos Santos