A Concepção Maçônica da Política

A política, em sua essência mais profunda, não é apenas o ato de disputar cargos, exercer poder ou legislar em nome de maiorias e minorias. A política, para além de sua prática corriqueira, é o exercício da convivência humana em sociedade, é a arte de administrar conflitos, organizar interesses e projetar um futuro possível para a coletividade. Dentro dessa perspectiva mais ampla, a Maçonaria, enquanto instituição filosófica, ética e iniciática, possui uma concepção própria da política, que a distingue das práticas comuns da luta partidária.

A Maçonaria, desde sua origem moderna no início do século XVIII, se posicionou como defensora da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Esses princípios, que mais tarde seriam apropriados pelas revoluções políticas e sociais, já faziam parte do arcabouço moral e simbólico da Ordem. Para o Maçom, a política não deve ser o campo da manipulação, da corrupção ou do carreirismo, mas sim o espaço da construção, do diálogo e da harmonia entre cidadãos livres e de bons costumes.

Diferente das arenas passionais onde predominam a retórica vazia e a busca por vantagens imediatas, a concepção maçônica da política está vinculada à ideia de responsabilidade moral. O Maçom, como indivíduo, é livre para exercer sua cidadania segundo suas convicções pessoais, escolher partidos, ideologias ou candidaturas. Contudo, a instituição Maçônica, em sua estrutura, se mantém apartidária e supraideológica, pois sua missão é mais ampla que a contingência das disputas temporais: ela busca trabalhar pela edificação do homem e pela defesa de valores universais que transcendem os ciclos eleitorais.

Esse posicionamento, no entanto, não significa omissão. A Maçonaria, ao longo da história, esteve presente em momentos decisivos da vida política dos povos: no Iluminismo, nas independências das Américas, na luta contra regimes totalitários e, em muitos casos, na defesa de direitos fundamentais. A diferença está em que sua intervenção nunca se deu como partido político ou facção organizada, mas sim como inspiração filosófica e moral para seus membros, que atuaram individualmente como cidadãos e líderes.

A concepção maçônica da política, portanto, não se fundamenta na conquista do poder pelo poder, mas no uso da política como ferramenta de emancipação do ser humano. É política no sentido aristotélico, de vida em comunidade e busca do bem comum; é política no sentido ético, de responsabilidade para com a justiça, a liberdade e a dignidade; é política no sentido universal, de compromisso com a construção de uma sociedade mais equitativa e luminosa.

Cabe ressaltar que, para a Maçonaria, a verdadeira política não pode ser desvinculada da moral. Quando a política se transforma em puro cálculo de interesses, em jogo de forças sem limites éticos, ela se degenera em tirania, populismo ou demagogia. A Maçonaria, pelo contrário, propõe uma política fundamentada em virtudes: prudência, temperança, fortaleza e justiça. É nesse horizonte que a Ordem oferece sua visão — não a de um programa governamental, mas a de uma pedagogia moral e filosófica que orienta o cidadão a agir com consciência e retidão.

Assim, o Maçom, quando participa da vida pública, deve levar consigo as luzes que recebeu em sua iniciação. Deve compreender que o verdadeiro poder é serviço, que a verdadeira liderança é responsabilidade, e que a política só se justifica quando se coloca a serviço do aprimoramento humano. Um Maçom que se envolve em corrupção, manipulação ou práticas espúrias da política trai não apenas a sociedade, mas também a si mesmo e aos princípios que jurou defender.

Portanto, a concepção maçônica da política é clara: política é um meio, não um fim; é um instrumento para a liberdade, não para a opressão; é um campo de ação moral, e não de interesses mesquinhos. O compromisso da Maçonaria não é com partidos ou ideologias, mas com a dignidade humana, a justiça e a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e iluminada.

Nilo Sergio Campos