A ilusão da vitória.

Algo de estranho acontece no primeiro discurso do eleito em uma disputa eleitoral. Ele se declara governante de todos, claro, e que irá governar para todos, aqui à escuridão. Há uma contradição insuperável: os seus partidários esperarão que ele governe para os que o elegeram, sendo assim, não há espaço para os adversários derrotados.

Tão logo o eleito tome posse, ele sentirá o peso desta contradição. A fatura da campanha lhe será apresentada. Os correligionários exigem, ardentemente, as nomeações para os cargos de governo, etc. Uma lista enorme de expectativa de apadrinhamentos e prioridades, todas voltadas para os seus eleitores e não para todos.

Para os que não votaram no eleito, para os outros, nada.  Os outros são os outros. E, nem adianta possuírem competências técnicas superiores, pois são  simplesmente perdedores.

Entretanto, esta contradição não é o maior problema. O problema é o desencontro entre o discurso de campanha e a ação de governo. Em geral, não há qualquer relação. Quem elaborou o discurso de campanha foi um profissional, e sua equipe, como um engodo político - marketing político se você assim preferir.

Apresentar como proposta de campanha o que o eleitor quer ouvir, e não o que é possível e necessário ser feito, foi a linha do marketing. Não foi por acaso que houve uma época em que o que se lia nas propagandas de campanha era: Eu quero! Quero Maria, Quero José...ou outro nome de qualquer candidato

Ao candidato só foi perguntado se ele queria ganhar a eleição. O como ganhar é com o marqueteiro, ou o ilusionista.Tudo será maquiado, inclusive a foto do candidato que ilustrará um semblante de alguém muito jovem e belo. Não importa que o candidato não o seja. No calor da campanha os seus partidários assim o verão.

           

Já presenciei campanhas em que o candidato aceitou ser representado por um boneco. Uma caricatura do candidato, mas muito mais simpática do que o próprio. Que passou a ser objeto de adoração dos militantes mais engajados na luta do bem contra o mal. O bem, é claro, o seu candidato; o mal, o oponente ou qualquer alternativa.

 Já presencie vizinhos fraternos que se tornaram inimigos, da noite para o dia, em razão de escolhas diferentes de candidatos. Assim, como vizinhos brigões que se tornaram amáveis correligionários.

Há uma guerra do bem contra o mal que conduz às rupturas de antigos laços e à formação de alianças temporárias.

No dia da posse do eleito é só festa. No dia seguinte, a ressaca. Nessa a descoberta, de que os recursos são escassos e de que a maior fatia do orçamento já está comprometida com despesas obrigatórias; serão herdadas muitas obras inacabadas exigindo suas conclusões. Enfim, o caminho já está praticamente traçado.

Resta ao eleito adotar uma postura ética no trato com os bens públicos e como os recursos escassos. Assim, governar para todos ou montar um balcão para atender a sua clientela. Advinhas qual a escolhida?

 * Hiran de Melo é professor da Universidade Federal de Campina Grande - UFCG.

 As afirmações e conceitos emitidos em artigos assinados são de absoluta responsabilidade dos seus autores, não expressando necessariamente a opinião da instituição.

"A verdade deve manifestar-se em nossos pensamentos, nossas palavras e nossas ações"
 
Mahatma Gandhi
"Jamais permita que os nós tapem a vista da janela, pois será através dela que enxergaremos a oportunidade dos laços!"

 

Áureo dos Santos