As Luvas Brancas

Recordo-me bem daquela noite em que atravessei pela primeira vez as portas do templo. O mundo lá fora parecia distante, como se tivesse ficado do outro lado de uma fronteira invisível. Dentro, tudo tinha um peso diferente: os gestos, as palavras, o silêncio.
Depois de prestar os juramentos que a tradição exige, veio um momento simples, mas que ficou gravado em mim com mais força do que muitos discursos. O Venerável aproximou-se e colocou em minhas mãos um pequeno embrulho. Dentro dele havia um par de luvas brancas.
Mandaram que eu as colocasse.
Disseram rapidamente, talvez rápido demais para quem estava vivendo tudo aquilo pela primeira vez, que aquelas luvas simbolizavam pureza. Pureza das mãos, pureza das ações, pureza da intenção com que um homem deveria caminhar pela vida. Naquele instante, obedeci como quem participa de um rito antigo, sem ainda compreender plenamente o seu peso.
Coloquei as luvas e olhei ao redor.
Meus olhos correram pelo templo. Meu padrinho e alguns irmãos também usavam luvas brancas.
Outros não.
Aquilo me causou uma estranha curiosidade silenciosa. Se aquilo era tão importante, por que nem todos as usavam
Mas naquela noite não era tempo de perguntas.
Então me entregaram um segundo par.
Disseram que eu deveria levá-lo e oferecê-lo à pessoa que eu mais amasse. Esse gesto, que à primeira vista parecia apenas delicado, carregava uma antiga tradição.
Depois perguntei para o padrinho:
— e agora? Posso levar pra casa entregar pra minha esposa?
Ele respondeu:
— meu novo irmão, desde os tempos em que a Maçonaria começou a se organizar esse costume lembrava ao iniciado que nenhum homem se constrói sozinho.
Fiquei parado ouvindo ele
— Sempre há alguém, uma mãe, uma esposa, uma filha, um amo… cuja presença silenciosa inspira a busca pela virtude.
Naquela noite levei as luvas comigo e entreguei como presente pra minha esposa.
Mas confesso: durante muito tempo elas permaneceram na gaveta, mais como lembrança do que como prática. Disseram-me que eu deveria usá-las durante os trabalhos. Contudo, como acontece com tantas coisas humanas, esse costume nem sempre era seguido com rigor. Eu mesmo, por muito tempo, também não as usei.
Foi apenas mais tarde, quando já caminhava pelos passos mais adiantados da Ordem e havia alcançado o grau de mestre no Rito Escocês Antigo e Aceito, que comecei a compreender melhor o verdadeiro sentido daquele pequeno objeto de tecido branco.
Percebi então que as luvas nunca foram apenas parte da indumentária do templo.
Elas são um lembrete.
Na antiga maçonaria operativa, os pedreiros usavam luvas para proteger as mãos ao trabalhar a pedra. Na maçonaria especulativa, porém, a pedra passou a ser o próprio homem, suas imperfeições, seus vícios, suas asperezas.
E as mãos, que antes seguravam cinzéis e malhos, passaram a representar os atos humanos no mundo.
Por isso as luvas são brancas.
Não para indicar que o homem já seja puro, mas para lembrá-lo constantemente de que deve esforçar-se para manter suas ações dignas daquilo que veste.
Com o tempo compreendi algo ainda mais curioso: não era importante que todos os irmãos estivessem usando luvas naquela noite. O essencial era que cada um soubesse, dentro de si, o que elas representavam.
Hoje, quando volto a colocá-las nas mãos, já não as vejo apenas como parte de um ritual antigo. Vejo nelas um pequeno símbolo silencioso que atravessou séculos.
Elas me recordam que o verdadeiro trabalho do maçom não acontece apenas dentro do templo, sob a luz discreta das colunas e dos símbolos.
Ele acontece lá fora, no mundo comum, onde as mãos do homem constroem, ajudam, erram, aprendem e recomeçam.
E talvez seja por isso que aquele primeiro par de luvas brancas, recebido numa noite distante — tenha se tornado, sem que eu percebesse, um dos ensinamentos mais discretos e mais profundos de toda a caminhada.
José Cantos L Filho
Mestre Maçom (Instalado)



