Em nome de Deus: a história de Abelardo e Heloísa

 

Meu primeiro contato com a história do filósofo medieval Pedro Abelardo (1079-1142) foi através do filme Em nome de Deus (1988). Comprei o DVD à época apenas pelo fato de gostar de histórias ambientadas na idade média, sem ter idéia do que encontraria pela frente. Inclusive, ao escrever o presente texto, me lembrei de uma postagem que fiz neste blog em 2010 relatando esta experiência.

 

Alguns anos depois, e sem nenhuma conexão com a película, comprei um volume da coleção Os pensadores com textos de outro filósofo do período, Anselmo de Aosta, pois na época estava escrevendo um artigo acadêmico sobre seu argumento ontológico. Por coincidência, naquele volume havia também textos de Pedro Abelardo, incluindo a carta autobiográfica A história das minhas calamidades. Só então descobri, de maneira totalmente acidental, que este texto era a base do filme, e fiquei feliz pela coincidência. O romance e a tragédia de Abelardo e Heloísa seriam obras de um genial escritor ou dramaturgo não fosse o fato de que tudo aconteceu de verdade. Como sempre é o caso, há algumas diferenças entre o livro e o filme, e o resumo que faço abaixo se baseia na carta de Abelardo.

A história de minhas calamidades

Pedro Abelardo escreveu A história das minhas calamidades para oferecer consolo a um amigo que passava por tribulações. Seu intuito era aliviar o destinatário, mostrando-lhe que as coisas pelas quais ele próprio tinha passado foram muito piores. Às vezes, ao perceber que há pessoas em situação pior que a nossa, tendemos a nos sentir menos desafortunados. Como diz o velho ditado, "desgraça compartilhada é meia felicidade".

Abelardo inicia fazendo uma breve retrospectiva de toda a sua vida. Conta que nasceu em um lugarejo chamado Le Pallet, situado na entrada da pequena Bretanha, e que desde pequeno se destacava pela vivacidade de seu espírito e pela facilidade no estudo das letras. Seu pai, antes de se tornar soldado, foi "um pouco versado nas letras", de modo que isso o levou a instruir os filhos nos livros antes mesmo dos exercícios militares.

Tendo preferido a lógica e a dialética a todos os ensinamentos de filosofia, o jovem Abelardo travava debates onde quer que passasse, e a facilidade e a destreza com que o fazia encantava a todos. Quando chegou a Paris, se tornou discípulo de Guilherme de Champeaux, que já gozava de certa fama e autoridade na arte da dialética. Abelardo, ciente de suas próprias capacidades e impulsionado talvez pela típica arrogância juvenil, tentava refutar as opiniões de seu mestre, o que causava indignação até mesmo entre seus condiscípulos. Como resultado, Abelardo passou a ser perseguido e foi expulso da escola.

Na mesma época, outro mestre também já tinha um nome de grande reputação: era Anselmo de Laon. Abelardo foi então ter com ele, mas logo percebeu que a fama deste vinha mais pelo acúmulo de experiência do que por um natural brilhantismo. A relação entre ambos foi se desgastando à medida que Abelardo se destacava, de modo que Anselmo passou a perseguir Abelardo, que precisou deixar também o segundo mestre.

Retornando agora para Paris, o filósofo francês finalmente trinfou. Foi admitido como professor no colégio onde havia sido expulso, e suas aulas eram frequentadas por grande número de alunos. O sucesso, porém, fez com que o filósofo se afastasse do estilo de vida que, segundo ele, deveria ser o de um filósofo ou cristão. Abelardo conta que nunca gostou de prostitutas, e que também se mantinha retraído do convívio com mulheres nobres, mas uma jovem iria mudar para sempre sua história.

O amor por Heloísa

Havia em Paris uma "mocinha" chamada Heloísa, muito versada nas ciências das letras, e sobrinha de um cônego de nome Fulberto. A erudição da jovem era incomum para as mulheres da época. Heloísa era dona de um espírito agudo, uma mente brilhante, e sua fama logo correu por todo o reino. Abelardo se interessou por ela e buscou uma forma de se aproximar. Tendo em vista o prestígio de que gozava como professor, sua boa aparência e também sua juventude, o filósofo considerou que não seria repelido por qualquer mulher a quem ele dignasse favorecer com seu amor, e resolveu investir em Heloísa.

Inicialmente eles se corresponderam através de cartas, o que lhes permitiu tocar em assuntos que não teriam coragem se estivessem de viva voz. Abelardo sentiu então que queria se aproximar ainda mais, e entrou em contato com o tio da moça, através de alguns amigos, solicitando alugar um quarto em sua casa. A desculpa era que assim ele ficaria mais próximo da escola onde lecionava, e que sua sobrinha também se beneficiaria deste acordo pois teria aulas particulares com um dos maiores professores de Paris. O tio cedeu facilmente e deixou Heloísa totalmente à disposição de Abelardo. Deu-lhe inclusive permissão para castigá-la, caso ela fosse negligente em seus estudos.

A união entre ambos se deu primeiramente numa casa e, com o tempo, também no espírito. "Assim", conta Abelardo, "com a desculpa do ensino, nós nos entregávamos inteiramente ao amor, e o estudo da lição nos proporcionava as secretas intimidades que o amor desejava. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças; minhas mãos transportavam-se mais vezes aos seios do que para os livros."

O comportamento de Abelardo mudou. Dar aulas se tornou um aborrecimento, e sua dedicação à filosofia também diminuiu. As noites acordadas nos braços de Heloísa tornavam difícil permanecer desperto em sala de aula, e suas lições eram repetidas mecanicamente, sem a vivacidade de outrora.

Os amantes são descobertos

Mesmo que o traído seja o último a saber, uma hora ele acaba sabendo. Depois de alguns meses, o tio de Heloísa descobriu, relutante, a relação entre Abelardo e a sobrinha, que se dava dentro de sua própria casa, debaixo do seu nariz.

Para agravar a situação, Heloísa ainda descobriu que estava grávida, e então teve que fugir. Sua fuga foi arranjada por Abelardo em uma noite em que seu tio não estava em casa, e ela foi morar com a irmã de Abelardo, onde seu filho Astrolábio nasceu.

 

Não cumprindo com sua palavra e buscando vingança para sua desonra, o tio de Heloísa divulgou o matrimônio, e a relação com a sobrinha ficou ainda mais estremecida. Abelardo a enviou então para uma abadia de monjas, a mesma na qual ela havia sido educada quando criança. Isso foi interpretado por Fulberto como outra afronta à família, pois imaginavam que Abelardo queria apenas se desfazer da moça, e então sua desforra foi cruel.

A mutilação

Certa noite, subornando o criado de Abelardo, alguns homens conseguiram entrar na casa do filósofo e lhe castraram, amputando o membro com o qual ele tinha provocado a ira de Fulberto. Dois dos criminosos foram presos, e a punição destes consistiu em ter o pênis e também os olhos arrancados. Um desses infelizes foi o servo traidor.

Na manhã seguinte, com a notícia se espalhando, houve grande comoção, espanto, estupefação. Segundo Abelardo, a lamentação de seus alunos e dos clérigos era mais intolerável que a dor física. A compaixão de que era objeto lhe incomodava mais que a própria ferida.

A humilhação da castração tornou Abelardo uma "aberração" a seus próprios olhos, e então ele decidiu que não mais poderia ensinar em Paris e que entraria para uma ordem monástica. Heloísa seguiu o amante e também ingressou num mosteiro.

Diversos clérigos pediram então a Abelardo que voltasse a ensinar, mas dessa vez por amor a Deus, já que anteriormente ele o fazia apenas pela ambição do dinheiro ou do louvor. Ele aceitou, mas logo surgiram problemas entre o filósofo e os abades, de modo que ele se retirou para uma casinha afastada no campo. Ali acorria uma multidão de estudantes que o local mal comportava, sedenta pelas lições do filósofo e teólogo.

O livro proibido e queimado

Totalmente dedicado agora ao ensino, Abelardo escreveu um livro intitulado Sobre a unidade e a trindade de Deus, com o qual pretendia registrar o que ensinava a seus alunos. Seus desafetos, porém, denunciaram a obra por heresia, e Abelardo foi levado a julgamento. Nada foi encontrado no texto que justificasse a acusação, mas a pressão para condenar Abelardo foi tal que não lhe foi permitido nem mesmo falar em juízo. Seus inimigos temiam que sua grande habilidade oratória pudesse escancarar definitivamente toda a farsa do processo. Nem a pressão dos alunos e nem a fragilidade das acusações puderam impedir a vitória dos detratores de Abelardo. A obra foi condenada e ele próprio teve que lançar seu livro à fogueira.

As perseguições não pararam depois disso. Tanto era o ódio dirigido contra o filósofo que, certa vez, alguns monges chegaram a colocar veneno em um cálice com o qual ele iria celebrar a missa. Em outra oportunidade, envenenaram a comida, e Abelardo só não morreu porque evitou a refeição, que acabou vitimando outro monge. Até mesmo salteadores foram pagos para lhe armarem emboscadas na estrada. Um exemplo de amor cristão.

O final da vida

Abelardo e Heloísa viviam separados já a algum tempo quando o abade de São Dionísio reclamou como propriedade sua a abadia de Argenteuil, expulsando de lá Heloísa e todas as suas companheiras. Ao saber disso, Abelardo lhe ofereceu o Oratório do Paráclito, um prédio deserto que havia sido construído pelo próprio Abelardo em 1122 e que ele havia abandonado ao ser eleito abade de Saint-Gildas-de-Rhuys. A doação incluiu todas as dependências e teve a aprovação do Papa Inocêncio II.

Abelardo passou a visitar as monjas com frequência, fazendo-lhes pregações especiais. Não demorou muito, porém, até que as más línguas começassem a difamá-lo e, a fim de preservar Heloísa e suas companheiras, ele se afastou do Paráclito. A comunicação entre Abelardo e Heloísa continuou através de cartas, as quais sobreviveram e estão disponíveis hoje em forma de livro. 

Vingança, inveja, amor, ódio, tragédia: são estes os ingredientes que fizeram da vida de Pedro Abelardo uma verdadeira história de calamidades. Não fosse tudo isso, talvez só nos restasse dele hoje suas obras sobre Lógica, e também não saberíamos que mulher extraordinária e à frente de seu tempo foi Heloísa. A relação entre ambos foi um exemplo do verdadeiro amor platônico, isso é, de um amor que é também carnal, erótico, inspirado por Eros em todos os seus momentos, e no qual um amante melhora a alma do outro através da filosofia, através do amor ao saber. Se o sofrimento de um artista pode ser sublimado para formar belas obras de arte, aqui foi um sofrimento real que produziu uma magnífica história de amor.

Abelardo morreu em 21 de abril de 1142, e foi enterrado no Paráclito. Heloísa faleceu em 16 de maio de 1164, e seus restos mortais foram depositados ao lado de Abelardo, e desde então permanecem juntos por mais de oito séculos. Após diversas mudanças de local, os eternos amantes medievais se encontram hoje no cemitério de Père Lachaise, em Paris. 
 
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