Entre a Luz e a Sombra: a Pedra Bruta do autoconhecimento

A antiga inscrição do Templo de Delfos dizia: “Conhece-te a ti mesmo.”
Séculos depois, essa continua sendo uma das maiores e mais difíceis tarefas do ser humano.
Conhecer o mundo é importante. Conhecer os outros também. Mas talvez o maior desafio seja olhar para dentro de si mesmo com honestidade suficiente para reconhecer virtudes, defeitos, limites e potencialidades.
Foi justamente nesse caminho que Carl Jung desenvolveu a teoria da Sombra. Segundo ele, todos nós carregamos uma parte oculta da personalidade: medos, ressentimentos, vaidades, preconceitos, inseguranças e impulsos que preferimos não enxergar. Não porque sejamos maus, mas porque somos humanos.
A sombra não é formada apenas pelos defeitos que escondemos dos outros. Muitas vezes, ela é composta pelos defeitos que escondemos de nós mesmos.
E talvez aí esteja uma das mais belas conexões entre a psicologia junguiana e a Maçonaria.
Quando ingressamos na Ordem, recebemos a missão simbólica de lapidar a Pedra Bruta. À primeira vista, imaginamos que essa pedra representa apenas nossos vícios mais evidentes. Com o passar do tempo, porém, descobrimos que as arestas mais difíceis de aparar são justamente aquelas que não conseguimos ver.
A vaidade que criticamos nos outros.
A intolerância que condenamos.
O orgulho que apontamos.
A rigidez que combatemos.
Não raro, aquilo que mais nos incomoda no comportamento alheio é justamente aquilo que habita silenciosamente dentro de nós.
A sombra possui esse estranho hábito de aparecer primeiro no espelho dos outros antes de se revelar em nosso próprio reflexo.
Mas a teoria de Jung vai além. Ela nos ensina que a sombra não abriga apenas nossos defeitos. Também guarda virtudes esquecidas, talentos não desenvolvidos e capacidades que, por medo ou insegurança, deixamos adormecer.
Quantos homens passam a vida acreditando não possuir determinadas qualidades?
Quantos enterram sua capacidade de liderar, servir, ensinar, escrever, acolher ou inspirar?
Essas virtudes ocultas também aguardam ser descobertas.
Nesse sentido, lapidar a Pedra Bruta não significa apenas remover excessos. Significa revelar aquilo que já existe dentro da pedra.
O escultor não cria a obra. Ele apenas remove aquilo que a impede de aparecer.
Talvez a jornada maçônica seja exatamente isso.
Não se trata apenas de vencer a vaidade. Trata-se de despertar a humildade.
Não se trata apenas de controlar a ira. Trata-se de desenvolver a temperança.
Não se trata apenas de combater a intolerância. Trata-se de cultivar a fraternidade.
Não se trata apenas de corrigir defeitos. Trata-se de descobrir quem realmente somos.
A construção de um homem melhor passa, inevitavelmente, pelo conhecimento de si mesmo.
A Maçonaria não promete homens perfeitos. Promete homens em permanente construção.
E toda construção séria exige coragem.
Coragem para reconhecer erros.
Coragem para rever certezas.
Coragem para admitir fragilidades.
Coragem para enxergar a própria sombra.
Porque a Luz não existe para destruir a sombra.
Ela existe para revelá-la.
Somente aquilo que é visto pode ser transformado.
Somente aquilo que é reconhecido pode ser lapidado.
E somente quem tem coragem de entrar em seu próprio templo interior pode compreender o verdadeiro significado da Pedra Bruta.
A maior obra da Maçonaria não é a construção do Templo. É a construção do homem que o constrói.
Cristiano de Lima Aguiar
Mestre Maçom da A.·.R.·.L.·.S.·. "Deus Pátria e Família" Nº 154 – Oriente de Corinto/MG – GLMMG
Oriundo do Blog: O Ponto Dentro do Círculo



