Envelhecer sem cena, sem anúncios, sem estrondo

Envelheci sem anúncio, sem cena, sem estrondo. Apenas deixei o tempo repousar em mim, como quem ajeita um lenço no pescoço e segue.
Enquanto eu me distraía vivendo, o corpo fez seu trabalho discreto. Mudou de ideia sem me consultar, ou talvez tenha apenas mudado de ritmo. Não houve campainha, não houve marco, não houve uma data para assinar. Houve continuidade. Um dia eu era urgência e promessa; no outro, eu era o mesmo — com outra cadência.
A mente permaneceu intacta, cheia de planos, curiosidades e vontades, como se ainda habitasse o corredor iluminado do começo. Já o corpo, sem pressa, foi escrevendo suas notas: as mãos ganharam histórias, o rosto aprendeu novos mapas, e o espelho passou a devolver não alguém que chegou de repente, mas alguém que foi se tornando. Não houve traição: houve tempo. O corpo desacelerou onde antes corria, pediu cuidado onde antes exigia força. E, em vez de perder dignidade, ganhou linguagem. Cada mudança passou a dizer experiência, não declínio; presença, não ausência.
Envelhecer é compreender que o tempo não precisa ser combatido. Basta ser acolhido. É permitir que o corpo se transforme sem que a essência se extravie. A mente segue curiosa, o olhar atento, o coração disponível. E o corpo, sim, envelhece — com uma elegância silenciosa, como quem sabe que viver é mudar sem pedir licença.
Luiz Alberto Silveira



