EXISTEM iRMÃOS E EXISTEM IRMÃOS

Na Maçonaria, talvez nenhuma palavra seja pronunciada tantas vezes e, ao mesmo tempo, tão pouco compreendida quanto a palavra Irmão. Dizemo-la nas sessões, nos ágapes, nas mensagens, nos encontros, nas solenidades e nas despedidas. Chamamos de Irmão aquele que acaba de atravessar os umbrais da Iniciação e aquele que há cinquenta anos trabalha entre Colunas. Chamamos de Irmão o homem que conhecemos profundamente e também aquele cujo nome mal sabemos.

Entretanto, a experiência ensina uma verdade desconfortável: existem irmãos e existem Irmãos. A diferença não está na grafia. Está na alma.

Há o irmão produzido pelo regulamento e há o Irmão construído pela convivência. Há o irmão reconhecido pela Potência e há o Irmão reconhecido pelo coração. Há o irmão cuja condição está registrada em documentos, diplomas e cadastros, e há aquele cuja condição não necessita ser demonstrada porque aparece espontaneamente na hora em que precisamos dele.

O primeiro pode ser resultado de uma formalidade iniciática. O segundo é resultado de uma construção moral. E talvez uma das maiores ilusões da vida maçônica seja imaginar que ambas as coisas sejam necessariamente iguais. Não são.

A Iniciação pode transformar um profano em membro de uma Loja. Mas somente a vida poderá transformá-lo verdadeiramente em Irmão. A PALAVRA É FÁCIL; A FRATERNIDADE É DIFÍCIL

É relativamente fácil dizer:

— Meu Irmão. Difícil é comportar-se como tal. É fácil abraçar no Templo. Difícil é defender na ausência. É fácil sorrir durante o ágape. Difícil é permanecer ao lado quando desaparecem os cargos, os interesses e as conveniências. É fácil visitar aquele que está forte. Difícil é procurar aquele que caiu. É fácil homenagear o poderoso. Difícil é sentar-se ao lado daquele que perdeu prestígio. É fácil chamar alguém de Irmão quando todos o aplaudem. Difícil é continuar chamando-o de Irmão quando todos começam a abandoná-lo.

A verdadeira fraternidade começa exatamente onde termina a conveniência. Enquanto existe vantagem, pode haver associação. Enquanto existe interesse, pode haver aliança.

Enquanto existe poder, pode haver aproximação. Enquanto existe prestígio, haverá sempre muitos cumprimentos. Mas a fraternidade somente pode ser conhecida quando alguma dessas coisas desaparece. É na adversidade que o substantivo Irmão deixa de ser palavra e se transforma em prova.

NEM TODO AVENTAL COBRE UM IRMÃO 

O avental é símbolo. Não certificado de virtude. O colar é símbolo. Não certificado de sabedoria. O malhete representa autoridade ritual. Não superioridade humana. O grau representa uma etapa iniciática. Não necessariamente uma etapa moral.

É perfeitamente possível encontrar um Aprendiz com grandeza de Mestre e um homem carregado de títulos que ainda não aprendeu as primeiras lições da Pedra Bruta. Porque a Maçonaria pode conceder graus. Pode conferir títulos. Pode instalar Mestres. Pode entregar diplomas. Pode outorgar comendas. Pode conceder medalhas. Pode preencher currículos maçônicos impressionantes. Mas existe algo que nenhuma Potência, Supremo Conselho, Grande Loja ou Grande Oriente consegue conceder por decreto: grandeza de caráter. Isso o homem constrói sozinho. Pedra por pedra. Escolha por escolha. Atitude por atitude. E é justamente aí que começamos a compreender por que existem irmãos e existem Irmãos.

O IRMÃO DAS HORAS BOAS

Existe aquele irmão que está sempre presente quando a mesa está cheia. Conhecemos esse personagem. Está nas fotografias. Está nos banquetes. Está nas solenidades. Está nas posses. Está nas homenagens. Está perto dos poderosos. Conhece todos os Grão-Mestres. Cumprimenta todos os Grandes Oficiais. Coleciona fotografias ao lado de autoridades. Sabe perfeitamente onde deve sentar-se para aparecer. Entretanto, quando chega a noite da vida de algum companheiro, misteriosamente desaparece. Quando o Irmão adoece, não encontra tempo. Quando perde alguém, manda uma mensagem protocolar. Quando enfrenta dificuldades, prefere não se envolver. Quando cai em desgraça administrativa, política ou pessoal, distancia-se prudentemente. Mas, quando esse mesmo homem recebe uma homenagem, reaparece. Sorridente. Fraterno. Abraçando.Chamando-o novamente de “meu querido Irmão”.

Essa fraternidade tem prazo de validade. É a fraternidade da fotografia. Do cargo. Da conveniência. Da reciprocidade calculada. Não é fraternidade. É sociabilidade interessada vestida de avental.

O IRMÃO QUE FICA

E existe outro. Talvez não fale muito. Talvez nem ocupe cargos importantes. Talvez nunca tenha recebido medalhas. Talvez seu nome raramente apareça nos grandes acontecimentos.Mas ele fica. Quando você adoece, telefona. Quando você sofre, aparece. Quando você erra, não necessariamente concorda consigo, mas não o abandona. Quando precisa criticá-lo, critica olhando em seus olhos. Quando alguém o ataca injustamente, não participa do coro apenas para agradar à maioria. Quando todos celebram sua vitória, talvez fique discretamente ao fundo. Mas quando todos desaparecem diante de sua derrota, ele se aproxima. Esse é o Irmão. Com letra maiúscula.

Porque existem homens que comparecem às nossas festas. E existem homens que comparecem às nossas tempestades. Nunca confunda os dois.

IRMANDADE NÃO É CONCORDÂNCIA

Também existe um equívoco perigoso: imaginar que fraternidade significa concordar sempre. Não significa. O verdadeiro Irmão pode discordar. Pode contestar. Pode advertir. Pode dizer: — Você está errado.

E algumas vezes essa frase poderá ser uma das maiores demonstrações de fraternidade. Porque bajulação não é fraternidade. Submissão não é fraternidade. Conivência não é fraternidade. Silêncio diante do erro não é fraternidade. A verdadeira fraternidade não exige que dois homens pensem igualmente. Exige que continuem respeitando-se mesmo pensando diferentemente.

Uma Loja onde todos precisam concordar com o Venerável Mestre não é necessariamente uma Loja harmoniosa. Pode ser apenas uma Loja silenciosamente autoritária.

Uma Obediência onde ninguém pode questionar dirigentes não demonstra união. Pode demonstrar medo. Fraternidade verdadeira suporta divergência. Aliás, mais do que suportá-la, aprende com ela.

O Irmão verdadeiro não deseja súditos. Deseja homens livres.

NÃO FALES DE MEU IRMÃO QUANDO ELE NÃO ESTIVER PRESENTE

Talvez uma das maiores provas da fraternidade aconteça quando o outro não está presente. É muito fácil respeitar alguém olhando em seus olhos. Mais difícil é respeitá-lo quando ele não pode ouvir. Quando começarem os comentários... Quando surgirem as insinuações... Quando alguém disser: — Você soube o que aconteceu com fulano?

É nesse instante que se revela muito do caráter maçônico. Porque quem destrói sistematicamente a reputação de um Irmão ausente dificilmente poderá invocar fraternidade apenas porque usa avental. Se há algo a ser dito, diga-se ao homem. Se há algo a ser corrigido, procure-se o homem. Se existe acusação séria, que se apresente pelos meios adequados. Mas transformar corredores, grupos de mensagens e mesas de ágape em tribunais clandestinos da reputação alheia é negar precisamente aquilo que se proclama dentro do Templo. Não significa encobrir erros. Muito menos proteger indignidades.

Fraternidade não é impunidade. Significa apenas compreender que justiça e maledicência são coisas profundamente diferentes.

QUANDO TERMINA O CARGO

Existe um teste particularmente interessante na Maçonaria. Observe quantos “Irmãos” cercam um homem quando ele possui poder. Depois observe quantos permanecem quando o cargo termina. É uma experiência educativa. Enquanto existe malhete, existem telefonemas. Enquanto existe influência, existem convites. Enquanto existe possibilidade de nomeação, existem elogios. Enquanto existe poder de decidir, existe uma surpreendente abundância de amigos. Depois vem a transmissão do cargo. O malhete muda de mãos. O colar passa para outro pescoço. A cadeira pertence agora a outro homem. E então acontece o milagre sociológico: algumas amizades evaporam. Os telefonemas diminuem. Os convites desaparecem. Os elogios encontram novo destinatário. E o antigo poderoso descobre quem realmente estava ao lado dele e quem estava apenas ao lado de seu cargo. Talvez seja uma das mais valiosas iniciações que a vida oferece.

O TEMPLO NÃO TERMINA NA PORTA DO TEMPLO

De pouco adianta falar em fraternidade durante duas horas se, depois do encerramento dos trabalhos, cada um retorna à vida profana esquecendo tudo o que acabou de proclamar.

O verdadeiro Templo começa justamente quando saímos do Templo.

Ali dentro existem símbolos para nos ensinar. Aqui fora existe a realidade para verificar se aprendemos. Dentro do Templo falamos de tolerância. Fora dele encontramos pessoas intoleráveis. Dentro falamos de fraternidade. Fora encontramos o Irmão difícil. Dentro falamos de caridade. Fora encontramos alguém necessitado. Dentro falamos de justiça. Fora encontramos injustiças. Dentro falamos da Pedra Bruta. Fora descobrimos que continuamos carregando a nossa. A ritualística oferece o mapa. A vida exige a caminhada.

O IRMÃO QUE ERRA

Talvez uma das questões mais difíceis da fraternidade seja esta: o que fazer quando um Irmão erra?

Existem dois extremos igualmente perigosos. O primeiro é abandoná-lo imediatamente. O segundo é justificar qualquer coisa em nome da fraternidade. Nenhum dos dois corresponde ao ideal maçônico. O Irmão verdadeiro não é cúmplice. Se houve erro, deve dizer que houve erro. Se houve injustiça, deve reconhecer a injustiça. Se houve indignidade, não deve transformá-la em virtude apenas porque foi praticada por alguém próximo. Mas existe enorme diferença entre corrigir um homem e destruí-lo. Entre responsabilizar e humilhar. Entre julgar um ato e condenar definitivamente uma pessoa. Talvez seja exatamente nesse espaço que resida uma das formas mais elevadas da fraternidade: não abandonar o homem enquanto se condena o erro.

O IRMÃO POBRE, DOENTE, VELHO E ESQUECIDO

Há uma pergunta que deveria incomodar toda instituição que proclama fraternidade: onde estão nossos velhos? Onde estão aqueles que trabalharam décadas pela Loja? Onde estão os que já não conseguem comparecer? Onde estão os enfermos?  Onde estão as viúvas? Onde estão os Irmãos que perderam recursos, mobilidade, prestígio ou saúde? É muito bonito homenagear os mortos. Mais difícil é visitar os vivos. Talvez algumas coroas de flores pudessem ter sido substituídas por visitas quando o homem ainda conseguia conversar. Talvez alguns discursos pronunciados diante de urnas funerárias devessem ter sido transformados em telefonemas alguns anos antes. Talvez algumas lágrimas tardias pudessem ter sido abraços oportunos. A fraternidade não deveria começar no funeral. Deveria impedir que alguém chegasse ao funeral sentindo-se esquecido.

O ORIENTE ETERNO E A ÚLTIMA LIÇÃO

Quando um Irmão parte para o Oriente Eterno, os títulos permanecem deste lado. Não levamos aventais. Não levamos colares. Não levamos medalhas. Não levamos diplomas. Não levamos cargos. Não levamos atas registrando quantas vezes fomos Veneráveis Mestres. Não levamos graus. Não levamos precedências protocolares. Diante da morte, o Grão-Mestre e o Aprendiz retornam à mesma condição fundamental: homens. Talvez seja essa a última e mais silenciosa lição da igualdade maçônica. No fim, restará apenas aquilo que fizemos aos outros.

Os homens esquecerão grande parte dos discursos. Esquecerão os cargos. Esquecerão as disputas administrativas. Esquecerão quem ocupava qual lugar no Oriente. Mas dificilmente esquecerão quem lhes estendeu a mão quando estavam caídos.

EXISTEM iRMÃOS E EXISTEM IRMÃOS

Depois de muitos anos de vida, aprendemos a diferença. Há irmãos de sessão. Irmãos de fotografia. Irmãos de banquete. Irmãos de cargo. Irmãos de conveniência. Irmãos de aplauso. Irmãos enquanto tudo vai bem.

E existem os outros. Os que permanecem. Os que telefonam sem precisar de nada. Os que perguntam sinceramente: 

— Como você está?

Os que percebem nosso silêncio. Os que conhecem nossas imperfeições e continuam próximos. Os que nos criticam sem nos humilhar. Os que nos defendem sem transformar nossos erros em virtudes. Os que celebram nossas vitórias sem inveja. Os que suportam nossas derrotas sem desprezo. Os que aparecem quando já não temos nada a oferecer. Esses são raros. E justamente por serem raros são preciosos.

TALVEZ A VERDADEIRA INICIAÇÃO SEJA ESTA

Ser iniciado é relativamente simples. Tornar-se Maçom pode levar uma vida inteira. Receber um avental acontece numa noite. Compreender o avental pode exigir décadas. Aprender sinais pode exigir algumas sessões. Aprender fraternidade talvez exija toda uma existência. Porque a maior iniciação não acontece apenas diante do Altar.

Acontece quando somos traídos e precisamos decidir se nos tornaremos iguais ao traidor. Acontece quando somos ofendidos e precisamos decidir se responderemos com justiça ou vingança. Acontece quando conquistamos poder e precisamos decidir se serviremos ou dominaremos. Acontece quando encontramos um Irmão caído e precisamos decidir se estenderemos a mão ou simplesmente continuaremos caminhando. Essas são iniciações que não aparecem nos rituais. São ministradas pela vida.

QUANDO EU DISSER “MEU IRMÃO”

Por isso, gostaria que a expressão “Meu Irmão” jamais se transformasse numa simples fórmula de tratamento.

Quando eu disser: Meu Irmão, quero estar assumindo uma responsabilidade.

Quero dizer: não preciso concordar contigo para respeitar-te. Não preciso bajular-te para estimar-te. Não preciso esconder teus erros para permanecer ao teu lado. Não preciso compartilhar todas as tuas ideias para reconhecer tua dignidade.

Se estiveres certo, caminharei contigo. Se estiveres errado, direi que estás errado. Se fores injustiçado, defenderei teu direito à justiça. Se caíres, oferecerei minha mão. Se fores homenageado, ficarei feliz. Se fores esquecido, tentarei lembrar-me de ti. Se todos te aplaudirem, não precisarei disputar lugar ao teu lado. Mas, se todos te abandonarem injustamente, talvez seja exatamente nesse momento que eu deva aproximar-me. Porque fraternidade não é estar perto quando todos estão. Fraternidade é permanecer quando quase ninguém permanece.

E, NO FINAL...

Um dia nossas Colunas ficarão vazias. Outro ocupará nosso lugar. Outro segurará o malhete. Outro usará o avental. Outro será chamado de Venerável. Outro pronunciará discursos onde hoje pronunciamos os nossos. E nosso nome lentamente se transformará em memória. Talvez apareça numa ata antiga. Numa fotografia amarelada. Numa placa. Num livro. Talvez nem isso. Mas haverá alguma coisa muito mais importante do que todas essas lembranças materiais.

Em algum lugar poderá existir um homem dizendo: — Ele foi meu Irmão. Não porque pertencemos à mesma Loja. Não porque usamos o mesmo avental. Não porque possuíamos o mesmo grau. Não porque obedecíamos à mesma Potência. Mas porque, em determinado momento de minha vida, quando precisei de alguém, ele estava lá.

Se um homem conseguir deixar essa lembrança em outro ser humano, talvez tenha compreendido mais profundamente a Maçonaria do que alguém que decorou todos os rituais, recebeu todos os graus e acumulou todas as honrarias.

Porque os graus terminam. Os cargos terminam. Os mandatos terminam. As administrações terminam. As disputas terminam. Até os Templos um dia desaparecem. Mas uma mão estendida no momento certo pode permanecer na memória de um homem até o último instante de sua existência.

Por isso, quando alguém me perguntar qual seria um dos maiores títulos que um Maçom poderia conquistar, talvez eu não responda Venerável Mestre, Grão-Mestre, Grande Oficial ou Grau 33.

Responderia simplesmente: Irmão. Mas Irmão de verdade. Desses que não precisam anunciar que são. Desses que a adversidade revela. Desses que não cabem numa carteira de identificação maçônica. Desses que nenhuma Potência consegue criar por decreto e nenhuma ruptura administrativa consegue destruir. Porque existem irmãos. E existem Irmãos.

Os primeiros encontramos aos milhares.  Os segundos, se tivermos sorte, encontraremos alguns durante toda uma vida.

E talvez a verdadeira sabedoria esteja em compreender que o mais importante não é descobrir quantos deles encontramos pelo caminho. É perguntar, silenciosamente, diante do nosso próprio Templo Interior:

Para quantos homens, ao longo de minha existência, eu consegui ser verdadeiramente um Irmão?

Essa pergunta nenhum ritual responderá por nós. Cada um terá de respondê-la sozinho.

Nilo Sergio Campos