Meio Nu, Meio Vestido

Há um momento, antes da porta, em que você já não é bem quem era e ainda não sabe, ao certo, quem vai ser. Para mim, isso começou pelo corpo. Foi ali que percebi primeiro. O relógio sai do pulso, e o pulso parece estranho, mais leve do que deveria. O casaco, a gravata, os metais que diziam ao mundo alguma coisa sobre quem eu era ficam para trás, numa cadeira, numa sala que mal cheguei a perceber. Falta uma parte da roupa. Um pé está descalço sobre o chão frio. O peito descoberto sente o ar de uma maneira que normalmente passa despercebida.

O que eu sentia não correspondia bem à ideia de nudez que eu trazia comigo. Também não correspondia à de estar vestido.
Os antigos tinham uma expressão para isso, "nem nu, nem vestido". Mas a expressão pouco ajuda quando se está ali. Naquele momento existe apenas um desconforto difícil de definir, certamente sem a grandeza que mais tarde podemos querer atribuir a ele.

O Graham Manuscript, de 1726, registra algo semelhante, e ainda hoje essa passagem me causa certo incômodo. O candidato declara não estar sentado nem de pé, caminhando nem correndo, nu nem vestido, calçado nem descalço. Penso então em tudo o que carregamos para sermos reconhecidos. O título, a profissão, o modo de falar, a maneira de apertar uma mão, as
pequenas marcas com que nos apresentamos aos outros. No mundo, tudo isso funciona. Muitas vezes, é necessário. Diante da porta do Templo, porém, perde subitamente boa parte de sua utilidade.

Não porque essas coisas sejam ruins. Ali, apenas dizem pouco. Você não entra melhor ou pior por ser advogado ou operário, rico ou pobre. Entra com o que sobra quando essas distinções deixam de ser suficientes, o corpo, consciência e o que trouxe consigo sem poder deixar sobre uma cadeira.

O pé descalço, por exemplo. Alguns lembrarão a sarça ardente: tira as sandálias, porque o lugar em que pisas é terra santa. Outros pensarão em Rute e na sandália entregue como sinal de compromisso. As duas referências fazem sentido, embora nenhuma seja indispensável. O que fica é algo mais simples, o choque do chão contra a pele, um chão que era bem real.
Você chegou calçado, protegido, quem sabe até com sapatos cuidadosamente escolhidos, e descobre que pisar diretamente sobre ele é outra experiência. O passo diminui, quase sem escolha. O próprio chão parece ensinar alguma coisa antes que a cabeça consiga dar nome ao que está aprendendo.

Dizem que o peito descoberto representa sinceridade. Pode ser. Naquele instante, porém, senti algo menos nobre e mais humano, a incômoda consciência de estar exposto. Não exatamente ao julgamento dos homens. Ao julgamento de mim mesmo, bem mais difícil de contornar. Ninguém chega ali vazio. Todos trazemos ideias que raramente submetemos a exame. Algumas são antigas demais para que ainda nos lembremos de onde vieram. Outras aprendemos a chamar de convicções simplesmente porque nunca tivemos coragem de interrogá-las. O peito descoberto pode ser também um convite para que algumas delas comecem a incomodar.

Tirar o relógio é fácil. O paletó pode ficar na antessala. Mas certas coisas não têm cabide, a inveja da semana passada, um ressentimento meticulosamente justificado, o preconceito que juramos ter superado, a confortável certeza de compreender o Irmão ao lado melhor do que ele próprio se compreende. Continua pesando por dentro.

A iniciação não apaga quem você é, uma vida inteira não desaparece em algumas horas. O que ela pode fazer é lançar luz sobre o que carregamos e nos obrigar a olhar. E então surgem perguntas desagradáveis. E se parte do que chamo de prudência for apenas medo, e o que apresento como firmeza esconder orgulho? É por isso que a verdadeira iniciação me parece ter tão pouco a ver com acumular segredos. Há algo profundamente profano na ideia de colecionar mistérios como outros colecionam títulos ou condecorações, acrescentando-os à própria importância. Se a iniciação produz alguma transformação, ela deveria caminhar na direção contrária, menos certezas, mais profundidade.

O iniciado não é aquele que passa a saber tudo. É aquele que começa a perceber o quanto ainda não sabe, e descobre que, atrás de cada porta aberta, pode haver outra porta. Não é preciso responder naquela noite, e quem sabe, seja melhor que
não se responda. Há perguntas que precisam sair conosco do Templo. Esse, para mim, é o despojamento mais difícil. Não o que acontece diante da porta, mas o que continua depois, quando estamos sozinhos e já não existe ritual para indicar o próximo gesto.

Mais tarde vêm o avental e as luvas brancas. Somos novamente revestidos, mas não retornamos exatamente ao ponto de onde partimos. O avental não é roupa de poder. É roupa de trabalho. Essa pode ser sua lição mais simples. Uma cerimônia marca um começo, mas não realiza, por si só, o que simboliza. O trabalho terá de continuar no dia seguinte, e no outro, sobretudo quando já não houver solenidade alguma para nos lembrar dele.

Entre estar meio nu e ser novamente revestido existe um caminho que nem sempre permanece iluminado. Há esquinas, tropeços, recuos. Dias em que o chão parece mais frio do que naquela primeira noite. Outros em que já nem sabemos se alguma vez compreendemos o que aconteceu ali. É nesse percurso que a iniciação deixa, aos poucos, de
pertencer apenas à cerimônia e começa a entrar na vida.

Meses depois, numa reunião qualquer, o pé descalço pode voltar à memória. A humildade, então, adquire outro significado, não como uma virtude que se conquista e passa a possuir, mas como um desconforto que se aprende a não evitar.

Não sei se ainda estou meio nu. Talvez esteja apenas remendado. O relógio voltou ao pulso. Com ele, a pressa, o hábito de parecer seguro e a necessidade quase automática de ter razão. Outras coisas podem ter ficado diante da porta. Não saberia dizer quais.

Essa incerteza me parece um dos resultados mais honestos de toda a cerimônia. Não uma resposta definitiva, nem a confortável sensação de ter chegado a algum lugar. Apenas uma dúvida que aprendemos a carregar sem a urgência de resolvê-la.

Afinal, a iniciação não me ensinou a encontrar respostas atrás das portas. Talvez tenha me ensinado apenas a continuar abrindo-as.

Sergio Copstein
Mestre Maçom da A.`.R.`L.`.S.`. "Resistência" Nº 536
Or.`. de Porto Alegre RS - Grande Oriente do Rio Grande do Sul - GORGS

Oriundo da Revista Virtual Cultural "Cavaleiros da Virtude" Nº 091 - Ano XIII - Setembro 2026