Memórias de um Quarto de Despejo

Em um período em que o termo “apropriação cultural” está tão em voga, como podemos promover o exercício de entender a posição do outro, do diferente, sem nos esbarramos na polêmica da apropriação? As obras de Carolina Maria de Jesus nos permitem viver o dia-a-dia na pele de uma mulher negra, catadora de papel e residente em uma das primeiras favelas de São Paulo. O livro vale a pena se você precisa repensar a cidade, a política, as relações sociais ou a própria vida.

Quem não possui em casa um quartinho, um armário ou uma gaveta que serve unicamente para despejo, onde a gente coloca todas as coisas que não cabem em lugar nenhum, que compramos por acaso, que sobraram, que quebraram ou para as quais simplesmente não se tem lugar? Para Carolina Maria de Jesus a favela é onde se colocam aqueles que não tem espaço na cidade, aqueles cuja situação vai ser resolvida depois. Escrito há mais de cinquenta anos, um passeio por qualquer cidade brasileira nos prova que o problema ainda não foi resolvido e o quarto de despejo se esparrama pelas cidades deixando rastros por onde passa.

Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914 em Minas Gerais, porém com 33 anos se mudou para a capital paulista. Sem dinheiro, sem emprego e sem formação ela se mudou para uma das primeiras favelas do Brasil, a favela do Canindé. Lá ela criou seus três filhos, construiu seu barraco e entre a luta pela subsistência e contra a fome ela leu muitos romances e escreveu os seus próprios. Em 1958 o jornalista Aurélio Dantas descobriu os diários da escritora e os levou para serem publicados. O livro foi um sucesso no seu tempo, inclusive Carolina foi uma das primeiras escritoras negras reconhecidas no Brasil; seu primeiro livro “Quarto de Despejo: diário de uma favelada” teve mais de 100 mil exemplares vendidos e foi traduzido para mais de 13 idiomas e vendido em mais de 40 países.

O que torna o livro tão sublime é a descrição dos eventos cotidianos da favela com uma naturalidade e banalidade que nos choca. A rotina, a fome e a morte são abordados pela autora no mesmo tom, sem que haja diferença entre o ato de ir pegar água pela manhã, de dormir com fome e a morte de um vizinho por ter comido carne envenenada. Ao mesmo tempo a descrição a atuação dos políticos e das instituições de caridade na favela e a maneira como ela é tratada na rua são os elementos que tornam a sua obra extremamente crítica e política.

"Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semicerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade". (Quarto de Despejo, 1960).

Após 60 anos de lançamento de sua obra, e 30 de sua morte, os livros da autora (no total são sete) são uma opção para aqueles que querem fazer o difícil exercício de se colocar na pele do outro. Sentir o cotidiano da vida na favela escrito e pensado por alguém que o viveu e não por alguém que se apropriou dele nos coloca em questionamento sobre muitas questões atuais. Inclusive nos faz repensar a atual despolitização frente aos problemas habitacionais, que cada dia mais são aceitas como condições naturais e orgânicas ao ambiente construído. Hoje é possível fazer visitas guiadas aos finais de semana de Jeep pelas favelas, não sobrando espaço para se pensar esse aglomerados como produto de um capitalismo cada vez mais excludente.

O único problema da obra da autora é que apesar no enorme sucesso obtido nos anos setenta, ela caiu no esquecimento. As publicações antigas são muito difíceis de encontrar e as novas estão esgotadas. É possível encontrar na internet PDFs de baixa qualidade, entretanto.

Aline Miglioli

Estudante de mestrado em economia, viciada em contradições e curiosa pela misteriosa arte de viver. Busco nos romances, nos pés de páginas, nas coisas não ditas e nas músicas cantaroladas a explicação para sentimentos e sensações do meu dia-a-dia.

Fonte: obviousmag.org

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