Moral da Dúvida

Há um poema de Paulo Leminski, sem título, que diz: “nunca sei ao certo / se sou um menino de dúvidas / ou homem de fé // certezas o vento leva / só dúvidas ficam de pé”.

O que se sobressai no poema é a afirmação final: “certezas o vento leva / só dúvidas ficam de pé”, sugerindo a perenidade das dúvidas em contraposição à transitoriedade das certezas, como se estas fossem menos importantes. Nesse nível, é um elogio da dúvida, que já apareceria no primeiro verso: “nunca sei ao certo”.

A dúvida é uma atitude central em não poucos posicionamentos e sistemas filosóficos. Um exemplo retirado da filosofia moderna é René Descartes. Na sua obra mais conhecida, O Discurso do Método, propõe-se a apresentar o seu método de pensamento, cujo catalisador foi sua insegurança em relação ao conhecimento adquirido até então. Reavaliando toda sua trajetória intelectual, recém-egresso da universidade, não tem segurança no que aprendeu. Com isso, passa a se dedicar a elaboração de um meio de raciocínio que lhe permita adquirir essa a segurança; ou melhor, o que Descartes almeja é um tipo de pensamento que lhe garanta a aquisição de conhecimento, com a segurança de que seja verdadeiro. O ponto de partida de seu raciocínio, portanto, é a dúvida: na Primeira Parte de O Discurso do Método, Descartes relembra sua trajetória por diferentes saberes e apresenta os fatores que lhe incitavam dúvidas diante de cada campo do conhecimento. Nesse sentido, não é de todo inconsequente dizer que Descartes constitui uma espécie de ética fundamentada na dúvida, isto é, nesse nível de análise, sua conduta está em função da dúvida.

Porém essa conduta não é para justificar um determinado tipo de comportamento, simplesmente; serve-lhe, justamente, para chegar a um princípio de certeza que lhe permite constituir um método de raciocínio seguro para a aquisição de conhecimento. É nesse momento, na Quarta Parte, de O Discurso do Método, que o filósofo enuncia sua máxima mais conhecida: ao duvidar de tudo, “(...) logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava” (pp. 61-62). Isto é, a única certeza que se tem é que se pensa.

Penso, logo existo – cogito ergo sum: ao pé da letra significa “penso, logo sou”. O enunciado adquiriu tamanha relevância que “cogito” tornou-se categoria filosófica: diz respeito, basicamente, ao sujeito constituído pela capacidade de pensamento. “Penso, logo existo”, não se aplica a fundamentação existencial de toda e qualquer coisa existente no mundo; seria um contrassenso. Aplica-se a fundamentar a existência de um ser que pensa, e esta capacidade de pensar é sua certeza primordial. A partir daí Descartes vai desenvolver seu “método” baseado na sua capacidade de pensar, sua única certeza, ou seja, na razão, para adquirir com segurança um conhecimento.

Veja-se que, se Descartes fez da dúvida uma espécie de ética, foi por uma atitude consequente para chegar à certeza. Não é do escopo deste texto situar o lugar do cartesianismo na história do pensamento humano, nem discutir seus limites, de certo modo anacrônicos; mas serve como referência para estabelecer um contraponto em relação a um fator bastante comum: a sobrevalorização da dúvida sobre a certeza, isto é, a descrença em uma verdade absoluta, inquestionável.

Não raro, alguns estabelecem a dúvida como característica constituinte de sua própria individualidade e comportamento, em uma espécie de ética particular. Noutras palavras, eleva-se a dúvida como virtude. Esse tipo de gesto, na verdade, se resume num efeito retórico para expressar um aspecto corriqueiro, a incerteza, mas como se fosse uma virtude ou uma característica original de individualidade.

Retomando o poema de Leminski: a afirmação final – “certezas o vento leva / só dúvidas ficam de pé” parece afirmar e valorizar a perenidade da dúvida sobre as certezas. Porém observe que essa “perenidade” advém de uma afirmação, e, diga-se de passagem, um tanto categórica: “certezas o vento leva / só dúvidas ficam de pé”. Se somente as dúvidas permanecem, como é possível estabelecer essa afirmação? Afirmações categóricas pertencem ao campo das certezas, não da dúvida. Como é possível, então, legitimar as dúvidas se uma certeza é afirmada? Nesse sentido, o poema se estrutura sobre um paradoxo.

Isso significa que a dúvida não é uma categoria confortável nem fácil. Mais do que isso, ela, por si mesma, não é uma virtude. A dúvida aplicada ao campo moral e ético serviria como ponto de partida para conhecer-se a si mesmo, não um ponto de chegada. A dúvida inicial pode ser superada. E o conhecimento de si mesmo não é um processo rápido, fácil e indolor. Ao contrário, é preciso coragem, paciência e persistência.

Duvidar, inclusive, pode se tornar um gesto conformista, fácil, e pode legitimar a preguiça, pois simplesmente aceita-se as dúvidas, sem tentar superá-las. Não observa que elas podem dar um direcionamento reflexivo que, se neste momento, a resposta é recebida como certeza, não implica que seja absoluta: ela pode e deve se renovar, permitindo o surgimento de outras dúvidas. Por isso a “inconstância” inicial do poema: “nunca sei ao certo / se sou um menino de dúvidas / ou homem de fé”; observe a sutileza na associação entre a “dúvida” com “menino”, pertencente ao universo infantil, talvez “inocente”, e a “certeza” com “homem”, que remete ao universo adulto. Isto é, a certeza de hoje não implica que valerá amanhã, mas isso não a deslegitima, pois há que se pensar que o amanhã não é o hoje. Trata-se de um processo cíclico, demorado e doloroso, em constante renovação.

As dúvidas podem e devem ser superadas, o que não significa absolutizar as certezas. Quando uma dúvida se resolve, outra surge, e é esse o império da dúvida. Isto é, não é a permanência da mesma dúvida, mas, na sua superação, gerar outras dúvidas.

Ricardo Gessner
Mestre e doutorando em Teoria e História Literária; Professor Colaborador na Universidade Estadual do Norte do Paraná. Publicou Paulo Leminski: uma poética da distração.

                                                                        
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Publicado Originalmente em RECORTES por .

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