O desbaste diário da minha Pedra Bruta

Ao receber a 2ª Instrução de Aprendiz, fui confrontado com um espelho simbólico de minha própria condição humana: a Pedra Bruta. Entendo agora que esta pedra não é um objeto externo, mas sim a representação de minha personalidade, ainda marcada pelas arestas do ego, da ignorância, preconceitos e dos vícios que acumulei ao longo da vida profana.

Para mim, o ensinamento central desta instrução é que a Maçonaria não oferece uma mudança mágica, mas sim as ferramentas, como o Maço e o Cinzel, para um trabalho de desbaste desta Pedra Bruta, que exige esforço contínuo e consciente.

Compreendo que o Maço representa a minha vontade e a minha determinação. No meu dia a dia, ele é a força que utilizo para dominar pensamentos vãos e impulsos imediatistas. É o “basta” que dou à preguiça  ou a intolerância. Porém, a força sem direção é destrutiva, por isso, aprendi que preciso do Cinzel.

O Cinzel, para este Aprendiz, é o discernimento e a educação do espírito. Ele é o que permite direcionar a força da minha vontade para pontos específicos, gravando em meu caráter as virtudes da probidade e da fraternidade Se no cotidiano me deparo com uma situação que considero injusta ou antiética, é o cinzel que me ajuda a agir com a precisão da moral, e não com a grosseria do instinto.

Entendi que estar ao norte, no Ocidente, sob uma luz ainda fraca, é reconhecer minha própria humildade e o longo caminho que tenho pela frente. O objetivo final, a Pedra Polida, não é apenas um título para alcançar posteriormente, mas sim o compromisso de me tornar um elemento útil à construção do Templo Social.

Ao “vencer a mim mesmo”, como propõe a instrução, busco identificar em minhas atitudes diárias os traços de egoísmo, vaidade e cobiça que ainda tornam minha pedra desforme. O desbaste acontece quando substituo o julgamento pela tolerância, troco a ambição desmedida pelo trabalho honesto ou reconheço em cada semelhante um Irmão que merece proteção e ajuda.

Dando uma atenção às outras figuras que tratou a 2ª Instrução, relacionadas com a edificação pessoal, como engenheiro civil, sempre vi o Nível, o Prumo, o Esquadro e o Compasso como ferramentas meramente utilitárias, destinadas a garantir a precisão geométrica de uma obra na sua concepção arquitetônica. No entanto, a instrução maçônica me permitiu ressignificar esses ítens tão comuns ao meu dia a dia profissional, elevando-os da técnica para a moral e a ética.

Hoje, ao observar o Nível em uma obra, não vejo apenas a horizontalidade de uma viga, mas a igualdade com que devo tratar todos os meus semelhantes, independente de cargos ou posições sociais.

O Prumo, que antes apenas me garantia a verticalidade de uma parede, agora me recorda a retidão de caráter que devo manter, mesmo diante das pressões da vida profana, para que meu templo moral não se incline para o erro.

O Esquadro, fundamental para o ajuste perfeito entre as partes de uma construção, passou a simbolizar para mim a retidão que deve guiar minhas ações, garantindo que elas estejam sempre ‘no esquadro’ da moralidade e da lei.

E por fim, o Compasso, que na prancheta de desenho define limites e círculos, ensina-me agora a importância da justa medida, delimitando meus desejos e mantendo minhas paixões dentro do círculo da razão e do respeito ao direito do próximo.

Essa ressignificação transformou meu canteiro de obras em um laboratório de virtudes. Entendo agora que, se como engenheiro sou responsável pela solidez das estruturas físicas, como maçom sou o responsável por garantir que as estrutura do meu próprio ser seja erguida com a mesma precisão, equilíbrio e retidão que exijo de meus projetos.
Em suma, a 2ª Instrução me ensinou que o desbaste de minha Pedra Bruta é um processo de manutenção diária e virtualmente perpétuo. Entendo agora que, antes de levantar edifícios de concreto, meu dever primeiro como Maçom é garantir a solidez da minha própria estrutura interior.

Comprometo-me, portanto, a não deixar o Maço e o Cinzel descansarem, aplicando a retidão do Prumo e a igualdade do Nível em cada decisão profana.

Que o meu esforço constante em transformar o que é bruto em polido seja a minha maior obra, permitindo que, das formas irregulares do passado, surja um homem mais ético, justo e verdadeiramente útil à construção de um mundo melhor.

Assim seja.

Doan Marcel Braga de Carvalho
Aprendiz Maçom da A.·.R.·.L.·.S.·. “Alferes Tiradentes” Nº 20
Or.·. de Florianópolis/SC