O Salmo 133 e o equívoco da Harmonia Garantida

A recitação do Salmo 133 na abertura dos trabalhos é uma tradição consolidada. Seu verso conhecido, "Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união", oferece, à primeira vista, uma imagem de concórdia e paz. Poderia ser entendido como uma fórmula decorativa, algo que se pronuncia porque, simplesmente, é bonito dizer. Mas se a Maçonaria escolheu justamente esse texto como limiar de cada sessão, confesso que sempre me intrigou essa escolha ritualística, mas não creio que seja casual, embora já tenha ouvido irmãos tratarem-na como mera tradição protocolar. Isso sugere uma camada de significado mais profunda. A escolha não parece aleatória, mas sim intencional, transformando o texto de uma mera declaração em um operador simbólico que demanda reflexão.
Uma chave para essa reflexão reside no diálogo permanente entre a abordagem racional e a força do símbolo, um diálogo que a prática maçônica sustenta, sem buscar uma síntese definitiva.
A Maçonaria moderna nasce no século do Iluminismo e carrega consigo um compromisso explícito com o uso da razão. O maçom é convidado, ou deveria ser, a desconfiar do dogma, a suspender a crença automática, a submeter ideias e símbolos ao discernimento. Nada é imposto como verdade final, tudo é oferecido como material de trabalho. Até aqui, nenhuma novidade.
Mas quando a razão se volta para o Salmo 133, ela logo percebe o incômodo: a fraternidade não se produz por decreto. Cantar "vivam em união" não faz ninguém viver em união. A experiência concreta, tanto a história quanto qualquer Loja minimamente sincera consigo mesma, desmente a ingenuidade. Sejamos honestos: quantas vezes saímos de uma sessão sentindo exatamente o oposto da fraternidade proclamada? A experiência prática, tanto em âmbito histórico quanto no microcosmo de uma Loja, atesta a presença constante de divergências, egos, vaidades e perspectivas irreconciliáveis. A harmonia, portanto, não é um ponto de partida. A razão impede que leiamos o Salmo como se ele descrevesse uma realidade já dada. Ele não descreve; ele perturba.
Mas vejam, seria um erro parar por aqui. Dissolver o Salmo a um simples objeto de ceticismo racional seria esvaziá-lo de sua potência, empobrecendo-o tanto quanto uma aceitação acrítica.
O Salmo não é um discurso filosófico. É construído com imagens poéticas e arcaicas. O óleo que desce sobre a barba de Aarão, o orvalho do Hermon. Estas não são descrições literais, mas evocações. A linguagem simbólica possui uma capacidade singular, tocar dimensões da experiência humana que resistem à completa tradução conceitual.
Essas imagens não explicam a fraternidade, mas apontam para uma qualidade de relação que surge quando certas condições internas são cultivadas. A instituição não solicita uma crença nas imagens, mas um trabalho com elas. O símbolo não anula a razão, provoca-a, desafiando-a a considerar territórios que a lógica discursiva nem sempre alcança. Ele convida a razão a expandir seus próprios limites, sem abrir mão de seu rigor.
Parece residir aí uma característica distintiva da abordagem maçônica: a recusa de dois caminhos mais cômodos.
De um lado, evita-se o dogmatismo, que transformaria o símbolo em mandamento literal e incontestável, convertendo a prática em um sistema doutrinário fechado.
De outro, rejeita-se um racionalismo redutor, que dissolveria o símbolo em uma alegoria moral inofensiva, esvaziando-o de seu poder transformador e tornando-o mero ornamento cultural.
Entre esses extremos, busca-se manter uma síntese exigente: preservar a integridade e a força do símbolo, enquanto se entrega sua interpretação à consciência e ao discernimento individual. Sob essa perspectiva, o Salmo 133 não garante a união, ele a apresenta como uma tarefa iniciática. Sua compreensão plena não vem de um assentimento intelectual, mas emerge do processo de trabalho interior.
Naturalmente, isso implica o risco da dispersão interpretativa. Se cada indivíduo elabora sua leitura, o que sustenta uma unidade de propósito? É possível que essa tensão seja inerente ao processo, e não um problema a ser superado.
E aqui está o pulo do gato: compreendido dessa forma, o Salmo 133 não celebra uma fraternidade já consumada. Ele ilumina uma condição rara e laboriosa: uma harmonia que só pode germinar quando o indivíduo trabalha sobre si mesmo, quando a escuta atenta supera a necessidade de autoafirmação, e quando a diferença é acolhida não como ameaça, mas como elemento enriquecedor.
A razão nos alerta que esse estado não é espontâneo. O símbolo oferece imagens que orientam e inspiram o esforço necessário. O espaço da Loja se converte, assim, em um campo experimental onde essas duas dimensões, a lúcida análise e a abertura ao simbólico, se encontram e se confrontam, com maior ou menor sucesso em diferentes momentos.
Talvez eu esteja exagerando ao chamar de “desafio silencioso”, pois na verdade, muitas vezes ele é barulhento demais, quando justamente aqueles que mais o recitam são os primeiros a violar seu espírito. Lembro-me daquela discussão sobre as finanças da Loja que quase terminou em ruptura, enquanto o eco do Salmo ainda pairava no ar. Mas enfim, essa é outra discussão.
É verdade que por vezes o Salmo pode ser recitado como uma fórmula confortante, como se atestasse uma harmonia já estabelecida. Mas, quando abordado com a seriedade dessa tensão entre razão e símbolo, ele deixa de ser um espelho do que somos. Transforma-se em um farol, apontando na direção daquilo que aspiramos a ser. É precisamente esse hiato, essa distância entre a condição atual e a imagem ideal, que mantém viva a busca. Sem ela, o ritual se converte em rotina, e a convivência, em mera sociabilidade.
Tenho pensado que o Salmo 133 funciona como um termômetro, quanto mais precisamos recitá-lo solenemente, pior está a febre interna da Loja. E faz sentido. O Salmo 133, no início dos trabalhos, não é um atestado de harmonia. Ele não declara "vejam como somos unidos". Ele interroga: "seremos capazes, hoje, de nos aproximar do que este símbolo evoca?”
Talvez sim. Talvez não. Mas a pergunta permanece.
Sergio Copstein
M.·.M.·. da A.·.R.·.L.·.S.·. “Resistência" nº 536
Or.·. de Porto Alegre/RS - Grande Oriente do Rio Grande do Sul (GORGS)
Fonte: Revista Cultural Virtual - "Cavaleiros da Virtude", Ano XIII, Nº 084, Fevereiro/2026



