“PALAVRAS SÃO PALAVRAS, NADA MAIS QUE PALAVRAS”

                                                                                                                                                                                      A maçonaria herdada da França adora três palavrinhas que constam do ideário republicanos daquele país: “liberté-egalité-fraternité” (liberdade, igualdade e fraternidade). No Brasil, após a entrada da internet na maçonaria, surgiu uma plêiade iluminada de gênios libertários, pensadores igualitários e Philosophiæ Doctor “fraternitários” que se debruçam sobre a relevantíssima questão em saber o que veio primeiro:

− A maçonaria criou esse “liberté egalité fraternité” ou foram os líderes da Revolução Francesa que adotaram “liberdade, igualdade e fraternidade” do velho Étienne de La Boétie?

Essa questão é tão fundamental para o nosso desenvolvimento pessoal e social, que prefiro discuti-la mais tarde − assim que a Academia Brasileira de Ciências proclamar, Urbi et Orbi, quem veio primeiro: a galinha ou o ovo.

O que me desorienta, além da iluminada clara e da dourada gema, é o tsunami de textos “maçônicos” abilolados que transbordam como galináceos excitados através dos celulares, tablets, notebooks e computadores. Nunca, desde a “Statuta et Ordinamenta Societatis Magistrorum Tapia et Lignamiis” (1248) ou do Regius Manuscript (Regius Poem - Halliwell, 1390) tanta gente falou tanto sobre martelos e pedras, ou de como os mestres obedecem aos oficiais, do desempenho de seus ofícios, e mesmo “quanto devem ter por retribuição os mestres oficiais”; nunca antes, garanto-lhes, tanta gente caiu do andaime, afora os que passaram das medidas ou insistem em dançar fora do compasso provocando riso nos anjos. 

Mas garanto-lhes também que nunca antes tão poucos se dispuseram a “botar a mão na massa”.

De toda essa sapiência, os mesmos sabichões não se detêm na análise daquilo que carregam nas lapelas, sem conhecerem o correspondente significado – mormente a “Cruz de Lorena” e o tríptico “liberdade/igualdade/fraternidade”.

Não preciso definir nenhuma dessas insignes insígnias − pois assim com Freud explica tudo, qualquer dicionário também explica:

FRATERNIDADE: é o laço de harmonia e união pelo afeto existente entre pessoas que lutam pelas mesmas causas.

LIBERDADE: é a possibilidade de a pessoa, que não sendo propriedade de outrem, se exprimir de acordo com sua vontade, sua consciência e sua natureza sem se submeter a qualquer força constrangedora física ou moral. 

IGUALDADE: princípio segundo o qual todos os homens são submetidos às mesmas leis e gozam dos mesmos direitos e obrigações.

Mais fácil do que comer um quindim, não é mesmo? Basta ter um dicionário (para os que gostam de livros) ou consultar no google (para os apressados).

Partindo do princípio que o quindim é um doce que tem como ingredientes gema de ovo, açúcar e coco ralado, afirmo-lhes que conhecer o significado ou a origem de alguma coisa não implica no domínio ou realização sobre a mesma. Você pode ter pleno conhecimento sobre uma harpa (instrumento musical), sua origem e emprego na música; ler durante anos sobre a harpa, ouvir gravações, ir aos concertos... mas se não adquirir uma harpa, se não se dispuser a estudar música e contratar um professor desse instrumento, não conseguirá tocar uma nota sequer na harpa ou em qualquer outro instrumento. O mesmo acontece em maçonaria: não adianta saber os significados literais de liberdade/igualdade/fraternidade, conforme visto acima; não adianta lermos sobre a Cruz de Lorena como emblema do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito; ou sobre o compasso, ou sobre o esquadro e as colunas. Não adianta nada reproduzir de cor todos os sinais, toques e palavras, dissertar sobre o setentrião ou sobre a “canícula do meio-dia”. Se não praticarmos esses elementos em nós mesmos e na administração dos Graus, continuaremos como os psitacídeos − vivendo de palavras.

“PALAVRAS SÃO PALAVRAS, NADA MAIS QUE PALAVRAS...”, dizia Valfrido Canavieira, personagem de Chico Anysio.

Digo-lhes que a IGUALDADE está se tornando apenas uma palavra na maçonaria que estamos a praticar. Se todos os maçons são submetidos às mesmas leis e gozam dos mesmos direitos e obrigações, por que uns poucos são mais iguais do que todos os outros? Sem a IGUALDADE que nos foi prometida na Ordem, desde a Iniciação no Grau de Aprendiz, como esperar que haja laços de harmonia e união entre os Irmãos? − como esperar o afeto bom e suave para vivermos unidos “como o óleo precioso derramado sobre a cabeça de Aarão?” Como lutar pelas mesmas causas? Sem a prometida IGUALDADE, uns poucos tornam-se proprietários de tudo, legislam e julgam ao seu bel-prazer... e o óleo precioso se torna rançoso, coalha, perder a fluidez e não desce mais “sobre a barba, a barba de Aarão”!

“Vivemos tempos estranhos”, disse um jurista. E dessa estranheza, vejo acabar no mundo a possibilidade de expressão conforme nossa vontade. A mídia e a política tornam embrutecida a nossa consciência; e os interesses pessoais se aproximam sorrateiramente dos portais de nossos Templos para aviltarem nossa natureza.

Que Rui Barbosa me permita parafraseá-lo: Triunfam as nulidades e a desonra, cresce a injustiça, agigantam-se os poderes nas mãos dos maus. Cedo ou tarde, estaremos submetidos à força constrangedora – primeiro moral, depois física. Quanto a nós, pacientes e pertinazes obreiros, permaneçamos atentos: não desanimemos da virtude, jamais riamo-nos da honra nem tenhamos vergonha de sermos honestos.

Quem tem olhos, VEJA! Quem tem ouvidos, OUÇA!

José Maurício Guimarães

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