Pensando fora de casa

Para Domenico de Masi, quem se afasta de seus afazeres por alguns dias e num café deixa a vida passar sabe como é importante momentos de ócio. Quebrar um tempo de seu cotidiano, num movimento que faz olhar a nós mesmos de outro ângulo, permite avaliação mais clara da vida. Assim, foi na terra de Victor Hugo, em uma mesa de um bistrô, que travei diálogos proveitosos. Primeiro com um conterrâneo, doutorando em criminologia.

Sua pesquisa é sobre monitoramento eletrônico, que na França é usado como pena e não como medida cautelar alternativa à prisão. Aliadas ao monitoramento há determinações judiciais sobre trabalho e estudo. Porém, existem apontamentos ao qeu se chama "prisão virtual", que tem seu público nos negros e imigrantes. Percebi que, diferente da Alemanha, a França não está discutindo o suficiente os fatores migratórios. 

Depois, também num bistrô, encontrei um jornalista do Brasil que estuda a produção do Marquês de Sade. Para ele, há um viés cinematrográfico nas obras do ícone, que não obstante a época em que viveu criou narrativas semelhantes àquelas que hoje são feitas para o cinema. Impossível fugir, porém, do sofrimento que permeou a vida desse aristocrata francês e escritor libertino. A Revolução Francesa a ninguém poupou e esteve longe da liberdade, igualdade e fraternidade. Sade, perseguido tanto pelo antigo regime como pelos revolucionários, seria guilhotinado no mesmo dia que Robespierre. Só não o foi porque a Justiça o considerou louco, não subversivo, mandando-o para a prisão na Bastilha.

Enfim, numa capital onde estudantes e trabalhadores impediam transportes públicos, em protesto contra uma nova e iníqua regulamentação trabalhista, e onde se passou a ver muitas famílias de refugiados vivendo na miséria das calçadas, pensando fora de casa, ficou claro para mim que em todas as épocas e lugares o homem pode usar a lei para banalizar o mal. Depende apenas desse mesmo homem saber discernir e não se deixar levar pela maré.

Autor

João Marcos Buch

Juiz da Vara de Execuções Penais e corregedor do Sistema Prisional da Comarca de Joinville.

Fonte: Diário Catarinense.

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Áureo dos Santos