Por que o conhecimento é poder?

Estamos familiarizados com aquele velho provérbio que reza: “o conhecimento é poder”. Com tanta prodigalidade se tem usado na literatura esotérica que, em verdade, já tem virado uma frase muito conhecida.

A origem da expressão “O Conhecimento é Poder” se perde na antiguidade. Podemos, no entanto, presumir que teve um princípio romântico. Por exemplo, a tradição nos relata que a advertência “Conhece-te a ti mesmo” estava inscrita na parte superior à entrada da gruta do Oráculo de Apolo, na antiga Delfos. Talvez a frase “Conhecimento é Poder” é, assim mesmo, a asserção de algum sábio já esquecido que soube compreender seu significado total.

Mais adiante do uso superficial deste termo tenha um significado muito profundo. Mas, será necessário que primeiro definhamos o que se quer dizer com o poder que pode prover o conhecimento. Pensaremos, acerca do poder, no mesmo sentido em que o fazem os físicos. Eles fazem distinção entre poder e trabalho. Definem o trabalho como um labor cumprido, como o fato de executar algo. Se levantamos, por exemplo, cinquenta quilos a uma altura de dois metros, isso constitui em si um trabalho realizado.

O número de vezes que tal peso se levanta é a quantidade de trabalho que se faz. A velocidade desenvolvida no tal trabalho seja o tempo que se emprega em levantar os cinquenta quilos e a repetição disto certo número de vezes, constitui o poder ou energia que se tem aplicado. Na física, portanto, poder equivale ao tempo necessário para completar certo trabalho. A extensão do poder pessoal se determina pelo tempo que cada um emprega em executar um determinado trabalho.

NOSSA TAREFA PESSOAL

Como indivíduos, nosso principal trabalho é a de viver, essa é nossa tarefa pessoal, a mais importante de todas. Tem-se dito que a vida é movimento e ação, exemplificada no crescimento, reprodução e locomoção; pode ser assim no que concerne à vida física, mas para o homem a vida é muito mais que isto. Para o ser humano a vida deve ter um propósito, deve ter uma direção consciente, o movimento em uma mesma linha até certo fim. Schopenhauer disse que a vida é uma linguagem que nos transmite certas verdades. Se estas verdades puderam-se nos comunicar em outra forma, a vida consciente não seria, então, necessária para nós.

Se a tarefa de viver é a aprendizagem de certas verdades, cabe perguntar quais sãos essas verdades.

Ninguém pode enumerá-las, porque não nos tem sido reveladas em sua totalidade. Em cada era, em cada época, não obstante, há quem esteja descobrindo mais e mais sobre o conhecimento da existência. Séculos de experiência tem mostrado ao homem que deve haver certa preparação para o descobrimento de tais verdades. A primeira das duas condições essenciais para esta preparação é a orientação; isto significa o fato de lograr encontrar-nos com nós mesmos.

Constitui nossa relação com o estado da existência. Como tem dito um filósofo, nossa vida completa pertence ao presente. Isto é tudo o que na realidade possuímos.

De imediato como podemos nos dar conta de nossa existência, depois de nascer, olhamos para o futuro extenso, a uma vida em perspectiva. Ao final desta experiência consciente olhamos para trás, ao nosso longo passado.

A vida presente é a mais importante em cada idade de nossa existência. O que sentimos o que pensamos e fazemos agora é o mais importante. Depois de tudo, nunca podemos pensar no futuro, pois quando chega é presente pelo fato de darmos conta de que existe. Somente está adiante de nós um futuro desconhecido. Ainda mais, o passado nunca está realmente separado de nós. O passado é uma condição esquecida, ou melhor, uma memória e, como tal, forma parte de nossa consciência presente.

Os homens tem-se atormentado sempre com a probabilidade de sua origem, de onde vieram, e de seu futuro ou destino. Tem-se torturado com sentimentos misturados de assombro sobre tais estados, e de temor para os mistérios do nascimento e da morte. Tratam de aprofundar no passado para descobrir o princípio; tratam, assim mesmo, de perscrutar olhando para frente pra romper esse véu, imaginando-se toda classe de condições futuras.

Tem-se preocupado tanto desses mistérios que têm chegado a desenvolver em duas doutrinas filosóficas gerais: a ontologia, ou seja, o princípio, a escatologia, o fim. Concebem estes reinos futuros qual como se tivessem propósitos estranhos para os homens e constantemente os imaginam povoados de seres sobrenaturais.

No entanto, as verdadeiras respostas com respeito ao nascimento e a morte somente as encontraremos nos concentrando na tarefa de viver, ao nos entregar com tudo a nosso estado presente de consciência, compreendendo-nos e à existência da qual podemos nos dar conta. Nenhum acontecimento, nenhum sucesso, não importa qual, ou quão diferente seja dos demais, é completamente independente.

Cada sucesso provém dos que se tem precedido e se fundirá nos subsequentes. As mudanças que percebemos no panorama da vida, sempre em movimento, não são fenômenos ou manifestações separadas, senão que são realmente intervalos de consciência. A mente se fecha e se abre durante uma fração de segundo. Isto se conhece como o vazio da consciência. Funciona em forma muito parecida ao obturador de uma máquina fotográfica.

Durante o intervalo de abertura se registra a impressão que se transforma em um quadro, o qual parece separar-se de todo os demais. Se o obturador da mente permanecesse aberto bastante tempo, outras coisas se haveriam misturado com os elementos do quadro. Portanto, se em realidade não existe o passado nem o futuro não há nascimento nem morte, nem princípio nem fim absolutos.

A FORÇA VITAL DA VIDA

Depois de tudo, que queremos dizer por nascimento? Queremos dizer aquele momento em que pela primeira vez chegamos a estar conscientes de nós mesmos e do mundo em que aparentemente vivemos? Tratamos de significar o momento em que o corpo físico começa sua existência independente ao separar-se da mãe? O melhor, a significação que damos ao nascimento corresponde ao momento em que pela primeira vez percebeu o homem a existência da força vital da vida, ou seja, o fato de que as coisas eram viventes e animadas?

Cada uma destas é um acontecimento, uma classe de princípio. Na realidade, somente são expressões da vida e da existência. Nenhum destes acontecimentos, por si só, representam verdadeiramente o nascimento, ou seja, é um princípio absoluto. O homem não é consciência unicamente, também é corpo e, portanto, não podemos medir seu nascimento desde o momento em que ele se dá conta de si mesmo.

Com respeito à força vital da vida, sua origem se perde na imensidade do tempo. A força vital da vida em nós é universal. Tem dado expressão a muitas classes de seres, ademais do homem, assim é que não podemos medir o nascimento pela vida do homem. Se cremos, por outra parte, que a consciência, a realização de nosso próprio ser é o aspecto mais importante da vida, deixemos, então, de preocuparmos pelo que existiu antes que chegáramos a estar conscientes de nosso ser.

Com respeito à morte ou o fim da existência, esta é somente uma troca na relação de nosso estado consciente e a realidade aparente do mundo que nos rodeia. O estado de vida confina a força vital de vida em formas ou corpos. No entanto, não se destrói pela desintegração de tais corpos.

Ainda os efeitos de nossa existência consciente, as coisas que temos feito durante este período de vida têm imortalidade se vivemos ativamente: Depois de tudo, vamos deixando sinais de nossos êxitos e ações. Pelo menos, a memória de nossa personalidade, de nossa existência nesta forma corpórea permanece com outros depois de nossa morte. Schopenhauer pergunta: “Que é o que no homem luta por existir?” E se contesta assim: “O Eu, Eu, Eu”. Toda a existência clama pelo mesmo, por ser; para que sua essência, pelo menos, continue. Desde o momento em que toda a existência está unida em sua essência sobrevivemos, pois chegamos a ser forças naturais depois da morte. A natureza não tem estados preferentes nem condições favoritas. Nenhuma expressão em particular persiste eternamente. Somos imortais pelo fato de que somos e pela substância que compõe nosso ser. Não esperemos estar perenemente preservados em forma especial, como uma pessoa ou corpo diferente; tal coisa seria contrária ao movimento necessário do Ser Absoluto.

Marco Aurélio, filósofo e estadista romano, disse: “Há algum homem tão insensato que possa temer a mudança? Todas as coisas que não haviam sido devem sua existência às mudanças. Que há de mais agradável e familiar à natureza e ao universo inteiro que a mutação?”. Para que inquietar-se, então, se a forma que hoje constitui nossa envoltura não há de perdurar?

DESENVOLVIMENTO DE SI MESMO

A segunda preparação essencial para esta tarefa de viver, este trabalho que está por fazer-se, é o desenvolvimento de si mesmo. Um produto manufaturado, tal como um refrigerador ou um automóvel, não é superior ao que o desenhou, à inteligência e habilidade postas nisso. Tão pouco é melhor que a qualidade do material usado em sua produção. O produto terminado é, então, representativo de ambos: da inteligência do desenhador e dos materiais que este usou. No entanto, o ser humano não é um produto completo.

O homem é uma casca que encerra potencialidades, uma reserva de grandes possibilidades. Nada é fixo ou permanente no homem. A força vital flui continuamente através dele. Sua mente e seu corpo são plásticos. Ambos são sempre capazes de responder aos impulsos da vida, aos estímulos, coação e impressões intuitivas.

A extensão de nossas experiências na vida e o que derivamos delas depende de nossa habilidade para dar livre jogo a nossas funções e faculdades. Enquanto maior é o pêndulo maior será seu arco de oscilação. Enquanto melhor respondamos a nossas potencialidades será superior nosso desenvolvimento e nossas experiências na vida.

Se a perfeição constitui um desenvolvimento em aumento dos atributos de nosso ser, então nos corresponde tal perfeição por ser algo inteiramente nosso. O desenvolvimento de si mesmo, como evolução e refinamento da mente ao compreender nossa relação com a existência, é tarefa muito importante do viver.

Se a orientação e o desenvolvimento de si mesmo são essenciais para essa tarefa de viver, então, quero dizer que enquanto mais rápido consigamos estas coisas mais rápido obteremos suficiência pessoal e verdadeira satisfação. O poder, aplicado à vida, significa o aceleramento na tarefa de viver no sentido que temos considerado. Este poder ou aceleração somente pode se alcançar por meio do conhecimento.

TRÊS CLASSES DE CONHECIMENTO

O conhecimento é de três classes gerais. O primeiro, ou seja, o conhecimento substancial, é o mais comum. É o que nos chega por meio dos sentidos objetivos, é dizer, as ideias que surgem a causa de ver, sentir, gostar, cheirar e ouvir. As qualidades dos diferentes sentidos dão sua mesma natureza a todos os impulsos externos, estas manifestações do Cósmico que percebemos.

Os sentidos dão a nosso mundo realidade, tal como a cor, extensão, odor e som. Portanto, o conhecimento substancial é o conhecimento do mundo da forma e da realidade. Este conhecimento não tem uma distinção particular. Não é único. Se podemos percebê-lo, se podemos ver e sentir, por exemplo, não podemos deixar de ter as ideias que são consequência de tais experiências. Estas ideias, provenientes da parte material, nos assediam durante todas nossas horas conscientes. Reclamam nossa atenção. Sentimos-nos compelidos a responder por elas.

A segunda classe de conhecimento é o conhecimento conceitual. É o conhecimento que vem da reflexão, da meditação, do pensamento. Este conhecimento é resultado do raciocínio. Esta segunda classe de conhecimento implica as ideias do conhecimento substancial. O conhecimento conceitual consiste em uma avaliação das ideias que emanam de nossas experiências.

Arruma as ideias de nosso mundo nessa compreensão, esse entendimento que chamamos ordem. É o conhecimento conceitual o que lhe dá ao mundo o valor que tem para nós, em relação com as necessidades reais ou imaginadas. O conhecimento substancial pode comparar-se a um homem que estende a mão e na qual se deixa cair uma quantidade de objetos. O conhecimento conceitual equivale a examinar os objetos de sua mão para determinar seu valor em relação consigo mesmo.

O conhecimento substancial vem da ação das forças da natureza sobre nossos sentidos. O conhecimento conceitual, por outro lado, é o resultado da iniciativa privada. Depende de nós. É a mente exercitando sua influência sobre o mundo que percebeu. Na realidade, o conhecimento conceitual cria nosso mundo pessoal. O mundo, para nós, é a compreensão que temos por meio do conhecimento conceitual de nossa experiência dele. É o conhecimento conceitual o que nos faz estabelecer comércio, profissões, o estado, e as ideologias políticas.

A terceira classe de conhecimento vem da consciência de si mesmo. Tem-se dado muitos nomes a esta classe de conhecimento através das idades, tais como conhecimento intuitivo, ideias inatas, e conhecimento da alma. É o conhecimento mais elevado de todos porque é a ideação que emana dos impulsos, impressões e estímulos da alma. É este conhecimento o que engendra uma disciplina moral. Ajuda-nos a determinar o bom e o mau de nossa conduta. Provém-nos com certas restrições.

É este conhecimento o que impede que o ser se avilte pelas paixões e desejos do corpo. É o que nos inspira com amor do Cósmico e cria o desejo de saber mais acerca de nossa existência. É o que se transforma em incentivo para o humanitarismo, o que trai um voo de compaixão e amor ao próximo. Inspira a virtude. E, em realidade, toda conduta nobre na vida, a que tem sido aclamada pelos filósofos e poetas, é uma expressão desta terceira classe de conhecimento.

Esta realização de si mesmo, entretanto, tem sido pervertida constantemente pela religião. Ainda que este tem sido o conhecimento que tem dado lugar à religião, ao intento de aproximar-se a Deus e compreendê-lo, a religião, por sua vez, com frequência tem tratado de reprimi-lo e confiná-lo a certos limites.

Esta terceira classe de conhecimento deve ser supremo para todos nós. Deve manter dentro de certas fronteiras o conhecimento conceitual. Deve fazer que a razão formule planos construtivos. Hoje em dia somente tem posto demasiado ênfase no conhecimento conceitual e na substancial. O que sejamos capazes de ver mais longe, de ouvir oitavas que antes não havíamos percebido, ou que possamos raciocinar sobre o uso de tal conhecimento, não nos beneficia em nada sem sua finalidade ou objetivo traz degeneração para o homem.

A tendência para um completo descuido da realização de si mesmo resulta em uma declinação moral e em um idealismo equivocado, para o extremo de que o conhecimento substancial e o conceitual se corrompem e mal empregam. O poder total do conhecimento vem somente do uso de todas estas três classes de conhecimento. Repetimos, o primeiro e mais elevado é o da realização de si mesmo; logo vem o conceitual e por último o mais comum, o seja, o substancial.

O ideal da Universidade RoseCroix, da Ordem Rosacruz é ensinar a formar o balanço entre estas três classes de conhecimento. Fácil é compreender que tal conhecimento aplainará a tarefa de viver e de alcançar com maior prontidão seus fins.

O lema que nos ajudaria a recordar a relação destas três classes de conhecimento é o seguinte: perceber objetivamente, conceber mentalmente e realizar moralmente.

RALPH M. LEWIS

Tradução livre do espanhol para português por: Juarez de Oliveira Casto.