Quando os Irmãos (e não Potências) Vivem em União

O Salmo 133 começa dizendo:

“Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.”

Essas palavras, atribuídas ao rei Davi, foram proferidas num tempo em que o povo de Israel estava cansado de se dividir. Durante anos as tribos haviam se separado, algumas seguiam a casa de Saul, outras seguiam Davi.
Havia disputas, desconfianças e até guerras entre irmãos.

Quando finalmente a paz chegou e Davi foi reconhecido como rei por todo o povo, nasceu esse salmo, cheio de gratidão.
Davi não estava comemorando uma vitória política, mas o reencontro da fraternidade.

Ele compara a união dos irmãos ao óleo precioso que desce sobre a cabeça de Aarão, mostrando que a união é algo que vem de Deus, algo que consagra e dá sentido à vida.
Também fala do orvalho do Monte Hermom, que desce sobre os montes de Sião, mostrando que a união refresca, renova e faz florescer o que antes estava seco.

Hoje, quando olhamos para o que acontece dentro da nossa própria Maçonaria, é difícil não pensar em Israel naquele tempo.
Vemos tantas divisões entre Potências, tantas desconfianças, tantos irmãos que deixam de se falar ou de se visitar por questões administrativas.

Às vezes, parece que nos esquecemos de que a Maçonaria não nasceu para separar, mas para unir.
Ela existe para aproximar homens livres e de bons costumes, e não para colocá-los em lados opostos de uma disputa.

Cada potência tem sua história, seu jeito, sua forma de trabalhar. Assim como cada tribo de Israel tinha a sua. Mas todas pertenciam ao mesmo povo, e todas serviam ao mesmo Deus.
Do mesmo modo, cada potência e cada Loja continua servindo ao mesmo ideal de Luz e aperfeiçoamento.

A união de que fala o Salmo 133 não é política, é espiritual. Não se trata de defender um único poder, uma única direção ou a formação de blocos institucionais.
A experiência mostra que há uniões políticas que não fortalecem a fraternidade, mas acabam por isolar irmãos e Lojas regulares.
O ensinamento do Salmo aponta para algo mais profundo: reconhecer que, mesmo diferentes, pertencentes a Lojas diversas e a Potências autônomas, continuamos sendo irmãos, unidos pelo mesmo ideal.

Podemos ter ritos diferentes, líderes diferentes e até pensamentos diferentes, mas o que nos torna Maçons é o compromisso com o bem, com a verdade e com a fraternidade.

O Salmo diz:

“Porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.”

Esse “ali” não está num Templo específico, nem numa Potência, nem num bloco de Potências unidas por tratados de amizade.
Está em qualquer lugar onde os irmãos se unem, onde o respeito vence o orgulho, onde a fraternidade fala mais alto que a política.

Que possamos aprender com o povo de Israel, que só encontrou paz quando deixou a rivalidade de lado.
Que também nós, maçons, saibamos colocar o ideal acima das diferenças.

A verdadeira Maçonaria não é feita de muros, mas de pontes.
E cada ponte começa com um gesto simples: a vontade sincera de caminhar junto, de mostrar que o verdadeiro reconhecimento é de um fiel irmão.

O mais importante é termos consciência de que a responsabilidade por esse estado de coisas está em nossos próprios ombros.
É sempre mais fácil se esquivar ou simplesmente não se importar, deixando que o comodismo e o silêncio substituam o compromisso fraterno.  Mas a Maçonaria não foi feita para a omissão.
Como verdadeiros maçons,
comprometidos com o ideal que professamos, devemos enfrentar essas dificuldades, agir com coragem e trabalhar, de forma concreta, para transformar esse quadro.

Que cada Loja, independentemente da Potência a que pertença, possa ser um lugar onde se cumpra o que Davi escreveu:

“Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.”

Que assim seja!

Maurício Ventura