Reflexões sobre fazer o mal e ser injusto

O senso comum nos direciona a noções de justiça que gravitam mais em torno de nossas necessidades individuais do que das necessidades coletivas. A máxima pregada por Ulpiano de que “justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que é seu”, hoje é interpretada pelos hermeneutas, sofistas da modernidade, de acordo com os interesses que esses defendem.

É certo que os conceitos evoluem de acordo com a dimensão do plano dos fatos. O conceito de Ulpiano traz uma enorme carga de dubiedade. Anatole France já dizia que “a justiça é a sanção das injustiças estabelecidas”. Ou seja, a ideia do jurisconsulto romano poderia ser vista da forma que o dar a cada um o que é seu seria dar ao rico sua riqueza e ao pobre sua pobreza.

Assim, caminha a humanidade na tentativa de buscar algo que a direcione rumo ao justo. Mas esse conceito abstrato deve ser mensurado através de atos. As palavras esvaziam-se com o tempo. Portanto, correto é dizer que o senso de justiça que norteia a busca pelo justo varia de acordo com a evolução da espécie humana.

Sócrates já afirmava que “entre fazer o mal e ser injusto não há diferença”. Esse filósofo grego, que nada deixou escrito, mas que teve suas ideias divulgadas por Xenofonte e Platão, talvez seja aquele que melhor sintetizou a ideia do justo através de uma postura antitética. A bem da verdade, Sócrates foi o maior adversário dos sofistas.

Pregava o filosofo grego que “nunca se deve cometer injustiça e pagar o mal com o mal, seja lá o que for que nos tivessem feito”. A grande preocupação desse Ateniense que maltrapilho polemizava na praça do mercado “era descobrir o que era justo, verdadeiro e bom”. Por isso se indispôs com os poderosos da época que induziram o descontentamento geral e a hostilidade popular contra este, apesar de sua inquestionável honorabilidade.

Colocado frente à fúria popular era tido como chefe de uma aristocracia intelectual contrária aos objetivos de Atenas. Acusado de não crer nos Deuses da cidade e de corromper a juventude, foi condenado à morte. Morreu com um cálice de cicuta. No dia de sua execução ao entregarem a taça de veneno ao mesmo, este sem vacilar, toma-a em um único trago.

Depois de andar algum tempo pela cela, se deita e espera com calma o seu fim. Suas últimas palavras, depois de ter sorvido tranquilamente a taça de veneno, foram: "Devemos um galo a Esculápio", já que o deus da medicina tinha-o livrado das injustiças da vida com o sublime aroma da justiça morte.

Mas a grande lição do filósofo ateniense foi de que as opiniões não são verdades, pois não resistem ao diálogo crítico. Todas as opiniões previamente formadas são contraditórias. Padecem sempre da dúvida que as fulmina. Acreditamos saber. Mas para saber precisamos descobrir que não sabemos. A verdade, escondida em cada um de nós, só é visível aos olhos da razão.

Surge então a célebre frase: "Só sei que nada sei”. Nela reside a essência de toda a sabedoria do filósofo. Reconhecer as próprias limitações é o primeiro passo para a busca do saber e, consequentemente, do justo. Talvez, devêssemos nos espelhar mais nos ensinamentos do homem que disse que “a vida não analisada não merece ser vivida”.

Ao adotar postura semelhante quem sabe cometeríamos menos erros. Não faríamos prejulgamentos precipitados. Evitaríamos fazer o mal. Deixaríamos de ser injustos. Pensaríamos mais no próximo. Amaríamos verdadeiramente. Aí sim, nossos problemas seriam mais simples. Nossos medos não existiriam. E o mundo, com certeza, seria um lugar melhor.

JOSÉ VITOR DA CUNHA GARGAGLIONE