RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE NA MAÇONARIA

“Lembre-se de seu Criador nos dias de sua juventude, antes que venham os dias difíceis e  se aproximem os anos em que você dirá: Não tenho satisfação neles” (Eclesiastes, XII, 1 - 7)

Religião - Todos somos filhos de Deus e temos o direito de invocá-lo como Nosso Pai. Nunca retornamos com a alma vazia depois de buscar a Deus, em meio ao pesar e sofrimentos. Mas se orar nos põe em calma e santa disposição de alma, não significa que devamos recorrer à oração somente nos momentos difíceis, ou quando nos sentimos presos da inquietude.

É bom fazer à noite um exame de consciência, antes de conciliar o sono: Cuidamos de conservar o corpo são? Contivemos nossas paixões e apetites? Fizemos bem ou mal a alguém? Agimos, enfim, da melhor forma que podíamos?

A religião impõe ao homem o dever de ser liberal, nobre, generoso, magnífico pela caridade. Para os homens, ela é tudo; para uns é a literatura e a ciência; para outros o deleite e o dever. Nos momentos de angústia e ansiedade constitui o maior e melhor dos consolos. O principal objetivo da religião não consiste em fazer o homem entrar no Paraíso, mas sim o Paraíso nele, coisa impossível se ocuparmos nossa mente com maus pensamentos.

Os deveres do homem para com Deus constituem a religião. Todo ato capaz de unir Deus à criatura pode se considerar religião, independente da nomenclatura.

Todos os homens são iguais perante Deus. E Ele fez suas leis para todos. Todos os homens estão submetidos às mesmas leis da Natureza. Todos nascem igualmente fracos, estão sujeitos às mesmas dores, e o corpo do rico é destruído como o do pobre. Portanto, Deus não deu superioridade natural a nenhum homem, nem pelo nascimento, nem pela morte: diante d’Ele, todos são iguais.

A religião visa ao retorno a Deus daquele que o “abandonou”, em um regresso aos preceitos contidos no Livro Sagrado de sua Fé. Denominam-se religiões as filosofias – há milhares delas – que conduzem o ser humano às Igrejas, movidos pelo temor de um castigo divino ou pela esperança de um prêmio após a morte.

A extraordinária diversidade de opiniões torna impossível escolher uma forma de culto religioso, ao qual, em teoria, todos poderiam aderir. Os cristãos aspiram uma vida eterna e consciente; os budistas o Nirvana, que é a absorção no espírito universal. Mesmo entre os próprios cristãos, os ideais diferem consideravelmente, segundo os séculos e os países.
Toda a crença é respeitável quando é sincera e quando conduz à prática do bem.

Reflexão – Religião para todos os homens deveria compreender-se como sentimento divino que torna claro o caminho da face augusta e soberana da Verdade; porém, dominados pelo egoísmo e pelo orgulho, pela cegueira e ignorância, ainda se encontram separados em seitas, castas, grupos, cada um reivindicando para si a posse da verdade exclusivista, excluindo-se, desprezando-se e negando-se ajuda mútua nos problemas que são de todos. Imaginam-se os senhores dos privilégios e como os detentores únicos da possibilidade de salvação. Acreditam que a luz foi feita só para eles.

Desta falsa interpretação têm nascido no mundo as lutas antifraternais e as dissensões religiosas de todos os tempos.
Pensando no fanatismo, nas perseguições infindáveis, nas guerras religiosas, naquele frenesi sanguinário de que os antigos não tinham idéia!

Pensando que se mata naturalmente, ad majorem Dei Gloriam (para maior glória de Deus), para a propagação do Evangelho, pelo qual quem não era cristão não era considerado como pertencente à Humanidade.

A Maçonaria cabe dentro do Cristianismo, da mesma forma como o Cristianismo cabe na Maçonaria. O cristianismo é totalmente compatível com a Maçonaria. O que não é compatível com os princípios maçônicos é aceitar a autoridade eclesiástica como absoluta representação de Deus na Terra; ou acreditar que só se atinge a iluminação através da orientação de uma Igreja, que seria a única a possuir a “chave de acesso a Deus”.

Religiosidade – A religiosidade é inerente ao homem. Sob as mais diversas formas e em todas as épocas, a Humanidade procurou relacionar-se com a Divindade. Por muito tempo imperou a idéia de que Deus deveria ser temido.

O Criador era apresentado, por muitas tradições, como cioso e vingativo. Jesus reformulou esse conceito, ao falar em um Pai amoroso e justo. Convidado a indicar o maior mandamento da Lei Divina, Ele sentenciou: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o coração, e de toda a alma, e de toda a mente. Este é o primeiro e o grande mandamento”. E o segundo é semelhante a este: ¨”Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (São Mateus, XXII, 37-40).

É interessante anotar que, ao invés de um, o Cristo apresentou, de uma vez, dois mandamentos.  Um fala em amor a Deus e o outro em amor ao próximo. Isso prova que tais comandos são entrelaçados. O amor ao próximo complementa o amor a Deus e vice-versa.

A Maçonaria ensina que Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Não se trata de uma personalidade, à semelhança dos homens, mas de uma Consciência Cósmica. O apreço por uma personalidade humana, frequentemente vaidosa, pode ser demonstrado por gestos exteriores. Em relação à Consciência Cósmica, despida de características humanas, isso não se dá.

Como Deus é a Inteligência Suprema do Universo, o amor por Ele implica o esforço por desenvolver a própria inteligência. Deus brindou Suas criaturas com dons maravilhosos, os quais precisam ser valorizados. O dom que distingue os homens do restante da Criação é a sua intelectualidade desenvolvida, a sua razão.

O amor a Deus pressupõe respeitar o Mundo e os seres que Ele criou. E também, logicamente, o esforço para entender esse Mundo e as leis que o regem. Tudo no Universo é progresso e metamorfose. Espécies animais e vegetais, as sociedades e as leis humanas, tudo se altera e aperfeiçoa. O papel de cada homem é colaborar nesse processo de aprimoramento. Para isso, necessita burilar seu intelecto.

Ao crescer em entendimento e compreensão, enche-se de admiração pela grandeza e pela sabedoria Divinas. Mas o amor ao próximo complementa o amor a Deus.

As faculdades desenvolvidas pelo estudo e a observação devem ser utilizadas em benefício do semelhante, para bem cumprir o mandamento do amor. Quando existe amor, o amor triunfa sobre todas as barreiras e preconceitos, mesmo sobre aqueles de natureza religiosa, tornando irmãs todas as criaturas. Porque a religiosidade esta acima da religião!

Concluindo - Deus – Ser Supremo, Criador único de tudo o que existe; em que se alicerçam todas as religiões e consequentemente onde é alicerçada a Maçonaria. Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom. Deus é, sem contestação possível, Pai de todos, portanto, dos católicos, dos protestantes, dos judeus, dos muçulmanos, dos ateus, dos espíritas, dos umbandistas e dos credos e crentes existentes no mundo.

A Maçonaria compreendeu que acima das religiões é absolutamente necessário expressar-se em Amor, sentimento essencial do qual derivam todas as demais qualidades morais dos indivíduos por todas as criaturas de Deus. Ela ensina que o amor consiste em querer o bem do outro, fazendo dom do seu próprio ser em benefício do outro.

Amor, esta exaltação a Deus, de um lado, aos homens do outro, ensinando a perfeita comunhão existente entre o Divino e as criaturas.

O Amor Fraternal é a divisa da Ordem Maçônica unindo as pessoas numa grande família, que a constituem, sustentando-lhes a sede e a fome de luz, de paz, de esperança e de amor, cumprindo o dever a que se acham obrigadas, sem exceção alguma, todos os Maçons da terra.

Um dia, que esperamos não esteja tão longe, o religioso e o crente, saberão colocar o Amor – a Religião por excelência – acima dos interesses mesquinhos e transitórios, todos se entre ajudando como irmãos, filhos do mesmo Grande Arquiteto do Universo!

Valdemar Sansão
"In Memoriam"