Renascer

Muitas vezes uma única palavra invade o nosso íntimo e mexe com a nossa memória. Provoca uma verdadeira viagem no tempo e traz nos seus braços a própria história. É o caso de RENASCER. Não me refiro a sua definição contida nas páginas de um dicionário, porque se assim o fosse, RENASCER simplesmente possuiria uma forma gramatical,  pragmática, para traduzir aquilo que na minha visão até interpreto com algo que soa impessoal, distante, solitário e nada mais. Não, não quero o verbo RENASCER dos acadêmicos. O RENASCER que me refiro é outro. Pulsa alegre dentro de nós tal qual a chegada de uma primavera. Refaz o que parecia desfeito. Recolhe com um sorriso os nossos momentos que se faziam distantes. Invade os sentimentos e até molha os nossos olhos.

Por um segundo fujo do objetivo deste texto e despertando a criança que me habita , brinco com a palavra de um lado para o outro, assim como se a mim fosse dado o direito de manusear com gentil inocência o seu significado.

A escritora Marguerite Yourcenar escreveu:

“ninguém sabe se tudo nasce para morrer ou se morre para renascer"

O seu sentido amplo nos leva para verdadeiros passeios no universo da existência e nos permite divagar.

Diante disso, até ouso imaginar que, quando à noite joga o seu manto escuro sobre o sol, ele se aquieta imerso e humilde na escuridão. Desaparece. Aguarda paciente o caminhar do seu tempo. E ao amanhecer ele não nasce, mas RENASCE. Não surge, ressurge, porque evidencia com os ensinamentos da natureza que sempre existe uma outra vez. Daí possuir um brilho com tamanha magnitude, força e contagiante beleza. Afinal, sente que sempre é possível RENASCER. Basta crer.

Renascer, palavra que até inspirou o Renascentismo, trazendo na sua história Leonardo Da Vinci com Mona Lisa, a última Ceia e o tão familiar Homem Vitruviano. Mas, qual a razão de ter origem no RENASCER? Simples resposta: trazia de volta, agora com nova forma, uma escola greco-romana do clássico. Então: RENASCIA.

Dentro de mim ainda trago a imagem da primeira vez em que vi a luz. Eu estava vendado. Ouvia vozes que eu não conhecia. Até que, repentinamente, ao retirarem de mim a venda que cobria os meus olhos, lá no fundo daquele local que eu desconhecia.

Lembro-me de tudo como se fosse hoje o dia da memória. E assim aconteceu a caminhada: havia respeito, igualdade, fraternidade, humildade, união e, quanto a mim, na busca da perfeição jamais alcançada ao menos me sentia motivado a tentar melhorar o que de imperfeito no meu íntimo existia.

A beleza vivida me incentiva cada vez mais para mergulhar na sua essência, afinal como uma criança engatinhando, eu observava os meus Mestres e sonhava em um dia ser como eles. Os exemplos me incentivavam. Assim me debrucei sobre livros e mais livros. Muito escrevi. Muito me esforcei, pois aquela luz de intenso brilho iluminava e fortalecia o meu caminhar. A união, o compromisso com a fraternidade me motivavam. E sempre que a reunião encerrava, silencioso eu agradecia ao Supremo Arquiteto do Universo pela felicidade que me proporcionara.

Pois o tempo foi passando. Muita coisa aconteceu e que se faz desnecessário aqui relembrar. Aos poucos notei que o juramento junto ao Livro da Lei parecia ter sido calado, esquecido, abandonado. Comecei a observar que a claridade da chama aos poucos enfraquecia. Inúmeras vezes questionei diante de muitos que usavam o Avental como  ajuste pode ser o divisor de águas. Por exemplo, na última corrida de 100 metros rasos das Olimpíadas de Paris em 2024, a diferença entre o campeão e o quarto colocado foi de apenas 0,036 milésimos de segundo.

Um atleta alcançou a glória enquanto outro ficou fora do pódio Essa mísera fração de tempo separou a glória olímpica de Noah Lyles da frustração Akani Simbine que ficou em 4º lugar. Como se vê, um grau Celsius ou uma piscada de olhos muda tudo, isso pode determinar o destino de atletas após horas de esforço.

No mundo dos concursos é bem parecido. Não raro um único item de uma das provas pode significar a aprovação ou a reprovação, sobretudo se o candidato está na berlinda entre ficar dentro das vagas ou não.

E eis que aquela questão derradeira, aquela única assertiva que ele não sabia dizer se era certa ou errada conduz ao insucesso completo. Não importam as horas dedicadas à preparação, tampouco os fins de semana sacrificados em nome da empreitada, uma só questão, uma fração de ponto em uma única prova pode mudar tudo. Um grau Celsius!

Agora, transpomos essa ideia para a vida financeira e social. Um esforço extra em atendimento ao cliente, por exemplo, pode transformar clientes satisfeitos em embaixadores da marca. Uma atenção adicional na elaboração de um projeto pode ser o diferencial entre uma solução ordinária e uma extraordinária. Como dizia Thomas Edison: “Muitas das falhas da vida ocorrem quando não percebemos o quão próximos estávamos do sucesso na hora em que desistimos.”

Além disso, há um aspecto matemático fascinante em se melhorar apenas 1% ao dia. Com um crescimento cumulativo, ao final de um ano (365 dias), a melhoria total equivale a mais de 3 vezes o ponto de partida. Esse conceito demonstra que não precisamos de grandes saltos para alcançar grandes transformações, o segredo está na consistência e na perseverança.

Vamos considerar a história da Revolução Industrial para reforçar essa ideia. Quando James Watt aperfeiçoou a máquina a vapor, ele não inventou o vapor ou mesmo a ideia de usá-lo como energia. Ele acrescentou pequenos ajustes que multiplicaram a eficiência da tecnologia existente. Esse aprimoramento aparentemente modesto gerou um impacto imensurável, transformando a produção industrial e, consequentemente, a economia global. 

Hoje, podemos aprender muito com esse exemplo histórico: é no “mais 1ºC” que está a chave para mudarmos a nós mesmos, mover locomotivas e/ou mudar o mundo.

Norberto de Barcellos
A.·.R.·.L.·.S.·. "Resistência" Nº 536 - Or.·. de Porto Alegre/RS - GORGS

Fonte: Revista Cultural Virtual - "Cavaleiros da Virtude", Ano XII, Nº 081 - Novembro 2025