Símbolo e Alegoria

INTRODUÇÃO:
No preâmbulo do Ritual de Aprendiz do Rito Escocês Antigo e Aceito de uma determinada Obediência, a Maçonaria é assim definida:
“É um sistema de Moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos”

Esta definição encerra em si duas expressões que precisam ser definidas: Símbolo e Alegoria.

Consultando o Dicionário Aurélio, sem exaurir a definição, conclui-se que símbolo é: “Aquilo que, por sua forma ou sua natureza evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente” / “Objeto material que, por convenção arbitrária, representa ou designa uma realidade complexa”. 

Consultando a Enciclopédia e Dicionário Koogan-Houaiss, símbolo é assim definido: “Objeto físico a que se dá uma significação abstrata” / “Figura ou imagem que representa alguma coisa”.

Em Psicologia:
“Ideia consciente que revela ou mascara outra, inconsciente.”

Passemos agora para a definição de Alegoria:
“Exposição de um pensamento sob forma figurada / Ficção que representa uma coisa para dar ideia de outra / Sequência de metáforas (1) que significam uma coisa nas palavras e outra no sentido”. (Dicionário Aurélio)
“Expressão de uma ideia através de uma imagem” (Enciclopédia e Dicionário Koogan- Houaiss)

CONCEITUAÇÃO:

Se consultarmos os dicionários supracitados, encontraremos a mesma definição para a expressão simbologia, ou seja, ―estudo dos símbolos. Será isso mesmo?

Susanne K. Langer (2) afirma que ―o símbolo deve ser definido como ―matriz de intelecçõe. Ele 1 Tropo que consiste na transferência de uma palavra para um âmbito semântico que não é o do objeto que ela designa, e que se fundamenta numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurado; translação. [Por metáfora, chama-se raposa a uma pessoa astuta, ou se designa a juventude primavera da vida.

Goethe (3), por sua vez, diz que "o simbolismo transforma os fenômenos visíveis em uma ideia, e a ideia em imagem, mas de tal forma que a idéia continua a agir na imagem, e permanece, contudo, inacessível; e mesmo se for expressa em todas as línguas, ela permanece inexprimível. Já a Alegoria, transforma os fenômenos visíveis em conceito, o conceito em imagem, mas de tal maneira, que esse conceito continua sempre limitado pela imagem, capaz de ser inteiramente apreendido e possuído por ela, e inteiramente exprimido por essa imagem."

As definições dos dicionários Aurélio e Koogan-Houaiss dizem que simbologia é o ―estudo dos símbolos‖. Por outro lado, tanto Susanne K. Langer quanto Goethe afirmam, respectivamente, que ―símbolo não existe para ser explicado‖ e que ―a imagem que se forma em torno do símbolo é inacessível e inexprimível‖. Considerando que, estudar algo é buscar explicações para o objeto em estudo e, considerando as afirmativas de Langer e Goethe, chegaremos a um impasse: É estudo ou Matriz de Intelecções? Pode ser explicado ou é inexprimível?

Para encontrar respostas para o impasse supostamente existente, porque não se tem certeza absoluta de que seja efetivamente uma contradição ou uma deficiência de interpretação minha, é preciso se aprofundar nos estudos para melhor compreender o assunto.

Entretanto, sob as luzes do pensamento de Goethe percebemos que há uma diferença muito grande entre símbolo e alegoria. Enquanto o primeiro é objeto material que ―transforma os fenômenos visíveis em uma idéia”, o segundo é expressão de uma idéia que ―transforma os fenômenos visíveis em conceito”.

INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA:
Escolhemos o livro GÊNESIS da Bíblia para exemplificar uma interpretação simbólica. Antes, porém, é necessário fazer o seguinte alerta:
Para interpretar o livro GÊNESIS da Bíblia é preciso desenvolver uma profunda capacidade de interpretação simbólica. Aliás, essa capacidade não se aplica somente ao caso da Bíblia, aplica-se, também, a toda a literatura clássica das grandes obras da humanidade.
Feito o alerta, vamos ao exemplo:
Como é que se explica que Deus disse ―Faça-se a Luz já no primeiro dia e o Sol só surgiu no quarto dia? Há explicações e são essas explicações que vamos tentar encontrar por meio da interpretação simbólica do livro GÊNESIS.
Vejamos o que dizem os versículos 3 a 5:
3 -  Disse Deus: Faça-se a luz; e fez-se a luz. 4 - E viu Deus que a luz era boa; e dividiu a luz das trevas. 5 - E chamou à luz dia, e às trevas noite; e da tarde e da manhã se fez o dia primeiro.

―Faça-se a luz. A luz aqui simboliza o intelecto, o espírito. Não se trata ainda da luz material do Sol que seria criada somente no quarto dia, mas da luz espiritual que é o mesmo que intelecto.

Portanto, o mundo começa a ficar compreensível contrastando com o abismo que é um mistério.
“...dividiu a luz das trevas.” significa que Deus separou um pedaço do mundo que vamos compreender (luz) e um pedaço do mundo que não vamos compreender que são as trevas simbolizando os mistérios insondáveis. Dividir significa que Deus criou limites, uma espécie de fronteira a partir da qual nós não saberemos nunca e continuaremos nas trevas, apenas para nos dizer o quanto somos criaturas e a nossa limitação como criaturas. Haverá mistérios insondáveis o resto dos tempos. Portanto, a nossa possibilidade de compreensão de alguma coisa, será sempre limitada.

Agora vejamos o que dizem os versículos 14 a 19:
14 - Disse também Deus: Façam-se uns luzeiros no firmamento do céu, que dividam o dia e a noite, e sirvam de sinais dos tempos, as estações, os dias e os anos; 15 - que luzam no firmamento do céu, e alumiem a terra. E assim se fez. 16 - Fez Deus, pois, dois grandes luzeiros, um maior, que presidisse o dia; outro mais pequeno, que presidisse à noite: e criou também as estrelas. 17 - E pô-las no firmamento do céu para luzirem sobre a terra, 18 - e presidirem ao dia e à noite, e dividirem a luz, das trevas. E viu Deus que isto era bom. 19 - E da tarde, e da manhã se fez o dia quarto.

Então aparece a luz no sentido físico da palavra que não é igual àquela Luz que é criada no primeiro momento. A Luz do primeiro momento é uma Luz do INTELECTO, da possibilidade de compreender o mundo. Essa luz agora aqui é a luz física propriamente dita. Observe-se como Deus cria uma hierarquia do ESPÍRITO sobre a MATÉRIA ao criar as coisas espirituais primeiro, e as coisas materiais depois. Portanto, não há nenhuma contradição. É só saber interpretar, pois todas as contradições aparentes são explicáveis numa perspectiva simbólica.

Agora, numa perspectiva literal nós ficamos sem saber o que fazer. Por essa razão precisamos utilizar o método que os escolásticos inventaram. Quando se deparam com alguma coisa que parece ser uma tremenda contradição, acreditar nela apesar de parecer absurda. Essa é a idéia de quem está lendo numa perspectiva dogmática. Mas quem está lendo simbolicamente, tem mais poder de interpretação do que quem está lendo dogmaticamente o assunto. Portanto,
é preciso entender que uma leitura simbólica vai gerar interpretações extraordinárias.

CONCLUSÃO:
Tudo aquilo que seja simbolizado tem que ter uma ligação real e concreta. Já na alegoria, não. Como nós não temos mais uma mente voltada para a simbologia, nós só sabemos fazer alegoria. Portanto, perdeu-se a capacidade da riqueza de interpretação simbólica no mundo moderno.

 

Anatoli Oliynik

Notas

(1) Dicionário Aurélio

(2) Susanne K. Langer (1895-1985), filósofa e educadora americana, autora do livro Filosofia em Nova Chave (1942), uma teoria sistemática da arte. Este best-seller de Harvard, muito lido e amplamente discutido, tornou-se um texto padrão em diversas aulas de graduação em filosofia.

(3) Goethe (Johann Wolfgang von), pensador, cientista, poeta, romancista e teatrólogo alemão (Frankfurt am Main, Alemanha, 1749 - Weimar, Alemanha, 1832).