Sobre o Rito Francês ou Moderno

 

 

 

A história do Rito Francês ou Moderno, principalmente a dos Altos Graus está por ser escrita; sem dúvida, essa página em branco nada mais é uma historiografia totalmente centrada no Rito Escocês Antigo e Aceito, REAA ou Rito Caroliniano [1] que se quis impor, mas que apesar de seu desenvolvimento contínuo por uma dúzia de anos, a força do preconceito faz com que alguns acreditem que seria apenas o substituto do REAA, quando historicamente o precede e o avança. O Rito Francês ou Moderno é, com efeito, o rito de fundação da Maçonaria das Luzes, da qual o Grande Oriente de França é tanto o instituidor quanto legítimo conservador.

 

Sabemos que o Grande Oriente foi constituído em 1772-1773 sobre as ruínas da Grande Loja. Os historiadores veem ali a tomada de controle do povo maçônico pela aristocracia liberal e pela burguesia esclarecida. O gesto mais simbólico da nova Obediência foi introduzir ali o princípio democrático da eleição dos Mestres de Loja: na noite do 4 de agosto maçônico, a Ordem antecipa o que os revolucionários imporão em nível de Nação. 

 

No entanto, se todos os maçons se colocaram de acordo sobre os três primeiros graus simbólicos – Aprendiz, Companheiro, Mestre – outra coisa muito diferente foi sobre os graus “escoceses” que eram propriedade de Poderes Maçônicos autônomos ou de indivíduos que faziam negócios com base neles. Reinava, portanto, a maior desordem, cada um segundo seu regime, apoiando-se em patentes verdadeiras ou falsas e, em muitos casos, em uma “tradição” incomprovável.

 

Era necessário que o Grande Oriente colocasse ordem no que o historiador Gaston Martin chamou precisamente de “confusão dos altos graus”.

 

O Grande Oriente poderia ter ficado satisfeito em reconhecê-los sob certas condições, como faria com o Rito Escocês Retificado de Willermoz; mas a solução em todo caso permanecia complexa porque significava ao mesmo tempo reconhecer que a Obediência não tinha o controle da sanior pars de seus membros e que a “verdadeira” Maçonaria, a dos Sábios, lhe escapava. Sua política foi diferente e perfeitamente de acordo com o espírito latitudinarista da instituição, que sempre foi “reunir os dispersos”. O assunto não foi ganho porque se suspeita que potências maçônicas independentes não se renderiam alegremente ao Grande Oriente sem contrapartidas significativas. 

 

Sabemos que a Grande Loja de Clermont chegará a uma solução somente em 1799. Uma câmara de graus foi instalada; seu papel era recenseá-los e unificá-los, determinando um centro comum. Presidida por Bacon de la Chevalerie, mais ligado à Reforma de Lyon do que aos regimes “filosóficos” que se desenvolvem sob a autoridade da Loja Mãe de Marselha – revelado em Paris pelo Contrato Social, onde em Rennes ao redor de Mangourit, em Rouen, mesmo com Mathéus, em Lyon, sob os auspícios do Grande Copta (Cagliostro), etc. a Câmara o tomou com calma e não parece ter pressa em encontrar uma solução para a questão irritante da alta maçonaria. 

 

A lentidão foi, sem dúvida, calculada, mas colidia com os instituidores do Grande Oriente, que perseguiam o espírito Andersoniano, e, portanto, queriam o Centro de União.

 

Sua inatividade será corrigida pelo Convento dos Filaletes organizado pelos membros da XI classe da Loja dos Amigos Reunidos de que Savalette de Langes foi fundador. 

 

Estudei em outra ocasião [2] esta loja que reagrupava a maioria dos seus quadros entre os financistas da administração real, em seu Capítulo (“Os lenços brancos” onde se encontraram Montmorency-Luxembourg, Roëtiers de Montaleau, Savalette de Langes, fundadores do Grande Oriente); o que convém recordar aqui é que o objetivo final e meta desse convento internacional era definir o conteúdo da “ciência” maçônica, fazer a seleção entre os regimes concorrentes, a fim de decidir o regime a ser retido de acordo com a tradição da Maçonaria Francesa.

 

Partindo da constatação de que todos os regimes maçônicos repousavam sobre patentes duvidosas, quando não eram grosseiras falsificações (penso na patente do Dr. Gerbier), o Grande Oriente ratificará em 17 de fevereiro de 1786 um tratado de União e incorporação do Grande Capítulo Geral como administrador dos graus acima de Mestre.

 

Ao contrário dos regimes que então estavam em andamento e que se estruturavam em graus (o Rito de Perfeição contava 25), onde o último e mais alto deste Rito se apresentava como o nec plus ultra da Maçonaria (“Príncipe do Real Segredo”), o Rito Francês ou Moderno oferecia apenas Ordens (da 1ª à 5ª ) desenvolvendo o mito de Hiram: a primeira Ordem: Da vingança à justiça (Eleito); A segunda ordem: Da união dos homens à reunião dos valores (Grande Eleito Escocês); A terceira ordem: Da destruição à construção (Cavaleiro Maçom); a quarta Ordem: Da libertação à expansão (Soberano Príncipe). 

 

Assim, a primeira Ordem reunia todas as variedades de Eleitos, o segundo de todos os graus escoceses, o terceiro os de Cavaleiro e o quarto, o de Rosa-cruz. Vemos, pois, que o Rito Francês ou Moderno não era, de forma alguma, um regime sincrético, um remendo que se amalgamava conforme observamos, no REAA (ou rito Caroliniano) graus templários, crísticos e alquímicos, sem um conjunto coerente, conjugando tradição e modernidade no espírito da filosofia do Iluminismo para reunir homens que, sem a Maçonaria, teriam permanecido perpetuamente estranhos, e poder realizar o Centro da União[3].

 

Uma Va. ordem coroava o conjunto: “A Va. Ordem compreenderá todos os graus físicos e metafísicos e todos os sistemas, particularmente aqueles adotados pelas associações maçônicas em vigor”. “(Biblioteca Nacional da França, FM4 144, Estatutos e Regulamentos Gerais, art. 29, cópia autenticada por Roëttiers de Montaleau em 6 de julho de 1786). Sua originalidade era que tinha que dominar todos os regimes e restaurar a coerência ritual do Grande Oriente enfatizando o parentesco orgânico que existia entre os graus simbólicos (particularmente o de Mestre) e os Altos Graus, abrindo-se a outros regimes entre os quais estavam os 81 graus e os graus retidos pelo Grande Capítulo Metropolitano em 1787.

 

As circunstâncias não permitirão ao Grande Capítulo levar a cabo esta política pragmática e de acordo com a definição da Ordem Maçônica como os seus fundadores desejaram. Ao desenvolver uma política de compromisso com a Corte de Roma, o Império instrumentalizará a Maçonaria e dará proteção ao REAA, cuja forte coloração crística combinava perfeitamente com o reencantamento do mundo, conforme testemunham as obras de Chateaubriand, De Maistre, Lamennais, Ballanche e Fabre d’Olivet, no início do século XIX. A simplicidade, a coerência harmoniosa do Rito Francês ou Moderno dos Altos Graus cederia lugar ao sincretismo barroco do Rito Escocês Antigo e Aceito por dois séculos.

 

São razões políticas que contribuíram para apagar o Rito Francês ou Moderno dos Altos Graus. Por outro lado, o REAA concordava perfeitamente com a recristianização do país desenvolvendo uma escala em 33 graus (supõe-se que Cristo tenha morrido aos 33 anos), sua administração foi confiada a um Supremo Conselho que detinha sozinho a autoridade dogmática e trabalhava com base no modelo despótico do Império. A obrigação de crer em Deus e na imortalidade da alma, que não figurava nas Constituições de Anderson, tornou-se uma condição sine qua non para ser admitido na Associação.

 

No geral, agora voltava-se as costas a todos os princípios que haviam feito da Maçonaria uma sociabilidade original que fora organizada em torno dos valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, deixando a cada um a oportunidade de acreditar ou de não acreditar. Tomou-se o pretexto da exclusão do “ateu estúpido” para dizer que a Ordem rejeitava os não crentes e que a Maçonaria era cristã. É inexato, porque a expressão Ateu estúpido é emprestada de um pastor presbiteriano, John Weemse, contemporâneo de Anderson e Desaguliers, que em seu trabalho Um Tratado dos Quatro Degenerados são, a saber o ateu, o idólatra, os magos e os judeus (London, Thomas Cotes, 1636), distingue quatro categorias de ateus: um que nega Deus (“negando Deus”); aquele que duvida de sua existência (“ateu que discute”); aquele que acredita apenas no que seus sentidos lhe trazem (“ateu físico”) e finalmente o ateu estúpido que é impermeável às luzes da razão; na verdade, tal ateu não existe; ele atua apenas como um espantalho em sua exposição Andersoniana – de apoio para moldar a gosto -. Designando apenas esse de uma maneira totalmente retórica, Anderson-Desaguliers não excluem as outras três categorias de ateus, o que concorda perfeitamente com o espírito latitudinarista da Maçonaria, e explica que Martin Folkes, que era francamente ateu, teria podido se tornar Grão-Mestre da Ordem.

 

Sem fazer do ateísmo uma virtude maçônica, também devemos reconhecer que a crença em Deus tampouco o é em maior medida. Não exigindo de seus adeptos qualquer ato de fé, o Rito Francês ou Moderno ilustra perfeitamente essa abertura inaugural da Maçonaria para os valores desenvolvidos pelo Iluminismo, e volta as costas às formas renovadas de obscurantismo de que certos altos graus místico-esotéricos se fizeram propagadores.

 

Charles Porset

 

[1] Para uma explicação dessa denominação ver meu artigo, «De Grasse-Tilly e o marketing caroliniano. Verdadeira história do REAA», em Grande Capítulo Geral do Grande Oriente de França, Maçonaria do Século das luzes. O Regulador do IIIo milênio. Rito Francês, Paris, Ediciones Véga, 2009, p. 202, n. 1.

 

[2] Charles Porset, Os Filaletes e os Conventos de Paris. Uma política da loucura, Paris, Honoré Champion, 1996, 778 p.

 

[3] Detalhes de Jacques Georges Plumet, A república planetária. Prefácio e comentários de Charles Porset, Paris, Ao Oriente, 2007, em particular cap. 3: “As cinco ordens entre tradição e modernidade”, e cap. 4: «O desenvolvimento da Quinta Ordem».

 

Guerra, Victor (In,  RITO FRANCÊS OU MODERNO – HIstória , reflexões e desenvolvimento)

Tradução: J. Filardo

 

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Áureo dos Santos