Um Líder que não quer liderar

Conversando com o Irmão e Amigo Agberto, nas intermináveis ligações Brasil-Portugal, por um momento chegamos a falar da animação “O Rei Leão” para comparar uma situação, onde Simba foi apresentado quando nasceu e depois precisou assumir o fardo de um reinado já destinado a ele. O “insight” foi imediato, mas por outra vertente, o meio da história, onde ele se eximiu da própria responsabilidade. 

Outra animação, em série, fala sobre o mesmo assunto, “Avatar: A Lenda de Aang”. Então, porque os Irmãos preferem tanto fugir de suas responsabilidades, sejam Grão-Mestres, Secretários, Veneráveis e Oficiais de Loja? Para facilitar, a analogia vem acompanhada de “flashs” das animações.

Tanto a jornada de Simba, em O Rei Leão, como a de Aang, em Avatar: A Lenda de Aang, costumam ser lembradas como histórias de amadurecimento e superação, mas, se olhadas com mais rigor, e menos romantização, elas também são narrativas sobre omissão, privilégio e o custo coletivo das decisões individuais. Ambos são figuras destinadas à liderança que, diante do peso de suas responsabilidades, escolhem fugir e, essa escolha, embora compreensível do ponto de vista humano, não é neutra. Ela produz consequências reais, duras e, em muitos casos, evitáveis.

Há uma tendência de tratar Simba e Aang com indulgência. Afinal, são jovens, pressionados, emocionalmente despreparados. Isso não deixa de ser verdade, mas não elimina o fato de que suas decisões afetam milhares de vidas. Liderança, nessas histórias, não é apenas um título simbólico: é uma função estrutural, pois, quando eles se ausentam, o sistema entra em colapso. No caso de Simba, a fuga é motivada por culpa e manipulação; após a morte de Mufasa, orquestrada por Scar, ele é convencido de que é responsável pela tragédia. 

O trauma é legítimo, mas o problema não está no sentimento, mas na decisão que vem depois: abandonar completamente sua posição e seu povo. Simba não apenas sai, ele se desliga e adota uma filosofia de vida que, na prática, é uma recusa ativa de responsabilidade: “Hakuna Matata” não é apenas um lema leve; é, nesse contexto, uma ideologia de evasão. Aang, por sua vez, foge antes mesmo da tragédia se concretizar. Ao descobrir que é o novo Avatar reencarnado, o mediador entre os povos e o guardião do equilíbrio entre quatro nações (Fogo, Ar, Água e Terra), ele entra em pânico, e aqui está um ponto importante: Aang não foge por culpa, mas por antecipação, pois rejeita o peso antes mesmo de tentar carregá-lo. Sua fuga resulta em um acidente que o mantém fora do mundo por cem anos, tempo suficiente para que a Nação do Fogo avance quase sem resistência.

Nos dois casos, a fuga não é apenas pessoal, é estrutural. Eles não estão deixando apenas suas casas; estão abandonando funções críticas. E isso precisa ser dito de forma clara: quando alguém em posição de responsabilidade se omite, o impacto raramente é individual. Ele se espalha. Aqui entra uma crítica que raramente é feita com profundidade: essas histórias suavizam as consequências da omissão de seus protagonistas. Elas mostram o sofrimento, sim, mas ainda centralizam a experiência emocional dos líderes ausentes, não das pessoas que sofreram por causa deles. O foco continua sendo o crescimento de Simba e Aang, não o custo coletivo de suas decisões e isso levanta uma questão incômoda: até que ponto essas narrativas reforçam a ideia de que líderes podem falhar gravemente e ainda assim serem celebrados apenas por retornarem?

Isso não significa que eles não mereçam redenção. Significa que redenção não deveria ser confundida com absolvição completa. 

Outro ponto que merece atenção é o privilégio inerente às suas posições, pois Simba é herdeiro de um trono e Aang é literalmente o único capaz de cumprir seu papel. Ambos têm acesso a um tipo de poder e influência que a maioria dos personagens ao redor não tem, e, ainda assim, escolhem se afastar, enquanto outros personagens continuam lutando, resistindo, sobrevivendo. Nala não teve a opção de fugir, assim como Katara e Sokka, que não puderam simplesmente se desligar da guerra; eles permaneceram, enfrentaram, agiram sem o mesmo reconhecimento narrativo.

Isso cria um contraste importante: a liderança é frequentemente tratada como um fardo exclusivo, quando, na prática, muitos já estão carregando pesos enormes sem os títulos, cargos ou poder e, ainda assim, é preciso reconhecer que a fuga de Simba e Aang é profundamente humana e o problema não é sentir essas coisas, é permitir que elas determinem a ação quando se está em uma posição de responsabilidade crítica. Quem vos escreve não nasceu líder e acredita que ainda está no processo de aprendizagem.

E chegamos ao ponto central: liderança não exige perfeição, mas exige presença e, a ideia de que só vale a pena agir quando se já está pronto é, em muitos casos, uma desculpa sofisticada para a inação. Também precisamos compreender que a liderança não é um processo isolado, onde, mesmo figuras centrais dependem de outras pessoas para se manterem no caminho; a diferença é que, no caso de Simba e Aang, essa dependência surge depois de uma falha significativa, não antes.

Mas nem tudo é um desastre completo, quando finalmente assumem seus papéis, ambos demonstram crescimento, pois esses momentos são importantes para mostrar que liderança não é apenas sobre ocupar uma posição, mas sobre como se exerce o poder e, ainda assim, é difícil ignorar que esse crescimento poderia ter começado muito antes, com menos custo coletivo.

Outro ponto crítico é a forma como essas histórias tratam o tempo. Tempo, em contextos de liderança, é um fator decisivo; atrasos têm consequências; decisões adiadas acumulam custos e; a ideia de que sempre haverá uma chance de “corrigir tudo depois” é perigosa. No entanto, essas histórias ainda oferecem algo valioso: a possibilidade de retorno. Elas mostram que, mesmo após falhas graves, ainda é possível agir, reparar parcialmente os danos e construir algo melhor. Mas essa possibilidade não deve ser romantizada como inevitável. Nem todo líder tem a chance de voltar e nem todo dano pode ser revertido. O que Simba e Aang têm é uma segunda oportunidade, algo que, no mundo real, é raro e muitas vezes condicionado por fatores que vão além do mérito individual.

Talvez a leitura mais honesta dessas histórias não seja a de celebração pura, mas de advertência. Elas mostram o que acontece quando a responsabilidade é ignorada, mesmo por motivos compreensíveis. Mostram como o impacto da omissão se estende muito além do indivíduo. E mostram que, embora o retorno seja possível, ele nunca vem sem custo. Se há uma lição central aqui, não é apenas sobre coragem ou destino, é sobre responsabilidade contínua, visto que Liderança não é um momento de glória no final de uma jornada; é uma prática diária, muitas vezes ingrata, que exige presença mesmo quando se está com medo, inseguro ou perdido. 

Simba e Aang não falham por serem imperfeitos, eles falharam porque, por um tempo significativo, escolhem não estar presentes onde eram mais necessários, e isso, mais do que qualquer batalha final, é o ponto mais importante de suas histórias e das nossas.

Carlyle Rosemond Freire
Jornalista e Cronista; Professor de Arte; Mestre em Educação; Algumas Pós, uma delas em Filosofia e História Maçônica. Membro da Academia Maçônica de Ciências, Letras e Artes - AMCLA; Membro Fundador da Academia de Letras e Artes do Grande Oriente de Alagoas - ALAGOA; Membro do Conselho Internacional de Dança - CID / UNESCO; Membro Fundador da Federação Alagoana de Dança Desportiva e de Salão - FEADS; Membro da União dos Escoteiros do Brasil - UEB.

Fonte: Revista Cultural Virtual: Cavaleiros da Virtude - Ano XIII - Nº 086 - abril 2026