Um Lugar Chamado Liberdade
Dentro do Universo Maçônico, poucas palavras possuem tanta força simbólica e prática quanto “Liberdade”. Não se trata, aqui, da liberdade superficial e utilitária proclamada por discursos políticos ou slogans vazios, mas de uma liberdade integral, que nasce no mais profundo do ser humano e se irradia para todas as dimensões da vida. Esse “lugar” não é geográfico, tampouco se encontra delimitado por fronteiras de pedra ou papel; é um estado de consciência, construído pelo trabalho paciente, pela lapidação da razão e pelo cultivo da virtude.
O Maçom é convidado, desde a sua Iniciação, a atravessar um portal simbólico para ingressar nesse espaço interior e exterior chamado Liberdade. É um lugar que não se conquista por decreto, mas por mérito; não se recebe de presente, mas se constrói com disciplina, estudo e ação. No simbolismo da Ordem, a liberdade está associada ao direito e à capacidade de pensar por si mesmo, de romper com dogmas cegos, de recusar o jugo da ignorância e da servidão mental.
No entanto, essa liberdade não é anárquica nem irresponsável. Ela não se confunde com a ausência de limites, mas com a presença de limites conscientemente escolhidos. O Maçom sabe que liberdade e responsabilidade são faces inseparáveis da mesma moeda. Aquele que deseja ser verdadeiramente livre precisa, primeiro, governar a si mesmo. Sem domínio próprio, a liberdade degenera em licença e desordem; com domínio próprio, ela floresce como força criadora e ordenadora.
Esse “lugar chamado liberdade” também é um território coletivo, ainda que fundamentado no indivíduo. A Maçonaria, enquanto instituição, defende que o progresso humano só é possível quando cada um tem assegurado o direito de buscar seu próprio aperfeiçoamento e de usufruir dos frutos do próprio trabalho. Não se trata de igualar artificialmente todos os homens, mas de garantir que todos possam disputar em igualdade de condições a corrida da vida, sem privilégios concedidos ou direitos usurpados.
A história da Ordem está repleta de momentos em que a liberdade foi defendida com vigor — às vezes, em silêncio e discrição; outras, de maneira aberta e arriscada. Maçons estiveram presentes em movimentos que derrubaram tiranias, na construção de constituições que garantiram direitos fundamentais e na disseminação de ideias que se tornaram pilares do mundo moderno. Mas, tão importante quanto defender a liberdade contra inimigos externos, é preservá-la contra a ameaça mais sutil: a indiferença interna.
Uma Loja que deixa de pensar livremente, que se acomoda em repetições vazias e que se fecha para o diálogo com o mundo, torna-se um espaço onde a liberdade se esvai, ainda que se continue a pronunciar seu nome. Esse é o paradoxo: a liberdade precisa de vigilância constante, e a primeira vigilância começa dentro de nós mesmos e dentro dos muros simbólicos do Templo.
O “lugar” da liberdade também se constrói na prática diária da fraternidade. Não se trata apenas de tolerar o pensamento divergente, mas de defendê-lo como parte da saúde de uma sociedade e de uma Instituição. A diversidade de ideias é, para a Maçonaria, um laboratório de aprimoramento, e não uma ameaça à unidade. A verdadeira união não se dá pela uniformidade, mas pelo respeito consciente às diferenças.
Além disso, a liberdade maçônica implica autonomia moral. Um Maçom não deve submeter-se a pressões indevidas, seja de líderes políticos, de poderes econômicos ou até mesmo de autoridades internas da própria Ordem. Sua bússola é a consciência bem instruída; sua lei, a que decorre da Razão e da Justiça. É nesse sentido que a Maçonaria se coloca como guardiã da liberdade, mesmo quando isso exige enfrentar a corrente dominante.
Por fim, “Um Lugar Chamado Liberdade” não é um destino fixo, mas uma construção permanente. Cada sessão, cada estudo, cada ação beneficente, cada decisão ética do Maçom é um tijolo colocado nesse edifício invisível, mas real. Quanto mais sólida for a consciência dos Irmãos sobre o valor da liberdade, mais forte será a Ordem e mais relevante será sua influência no mundo profano.
A Liberdade, para a Maçonaria, não é apenas um direito conquistado; é uma missão a ser defendida. É um farol que ilumina o caminho daqueles que desejam viver não como servos, mas como homens plenos — homens capazes de construir sua própria vida, de pensar com clareza e de agir com dignidade. Esse é o verdadeiro “lugar” onde todo Maçom deve aspirar habitar, e que só existe na medida em que cada um o mantém vivo dentro de si e ao seu redor.
Nilo Sergio Campos