VIÉS DE SALIÊNCIA


Mineiro da gema que sou, da capital das Alterosas, praticante do sotaque mais “bunitim” do Brasil, digo que temos muitos Irmãos salientes. Pelos rincões deste estado de 853 municípios, entendemos, no dialeto mineirês, que saliência é sinônimo de “assanhadês”, “osadia” e “trivimento”, adjetivos que não combinam com nossos propósitos.

A saliência da qual iremos tratar refere-se àquilo que se sobressai, que possui certa evidência, algo que se destaca ou chama a atenção. E é nesse sentido que reafirmo que temos muitos Irmãos salientes, e estes trazem e fazem novos progressos na Maçonaria, estreitam os Laços de Fraternidade.

O tema, porém, não é sobre o destaque, mas sobre uma distorção de julgamento do observador. A Maçonaria trabalha com símbolos, alegorias e lendas. Então, permitam-me criar uma estória.

Na pedreira de Visdom, durante décadas, um homem caminhava pela borda superior e ia retirando pequenas pedras, calçando as médias e alertando os companheiros sobre o estado das trincas e possíveis deslocamentos das placas. Gammal era silencioso e quase imperceptível. Eis que o novo chefe, Vördade Mästare, julgou que Gammal era improdutivo e o retirou dos trabalhos.

Em seu lugar, foi contratado Lärling, cujo sorriso e fala conquistaram a todos. Contudo, ele não percorria a canteira, pois gostava de ficar na sombra do norte. Em uma tarde pujante dos trabalhos de quebrar pedras, uma súbita tempestade gerou o caos nos canteiros da obra. O vento e a chuva forte começaram a deslocar as pedras soltas à beira dos paredões, caindo sobre os operários; as enxurradas adentraram nas trincas, e grandes blocos ruíram.

O jovem Lärling correu para o portão e gritou para que todos saíssem. Dessa forma, a maioria se salvou, e Vördade atribuiu a Lärling a amenização dos danos. Ele foi aplaudido e condecorado. Mas ninguém se lembrou de que nunca havia acontecido isso, uma vez que, no passado, o velho Gammal cumpria sua missão humildemente e em silêncio.

A isso chamamos de Viés de Saliência. Temos a tendência de prestar mais atenção ao que é intenso ou inesperado, ao barulhento, pois, o que acontece discretamente, tendemos a ignorar.

Isso ocorre muito na Maçonaria. Valorizamos os Irmãos que resolvem crises e produzem grandes feitos, ao passo que ignoramos aqueles Irmãos que, por anos, dedicaram-se para que as crises não acontecessem, fazendo com que tudo ocorresse Justo e Perfeito.

O MELHOR OBREIRO É AQUELE QUE TRABALHA
E OS IRMÃOS NEM PERCEBEM QUE ELE ESTÁ TRABALHANDO.

A intenção deste artigo é alertar os Irmãos sobre possíveis injustiças que possamos estar praticando ao não reconhecermos Irmãos que chegam mais cedo para arrumar a Loja e colocam um copo de água para que o palestrante possa se expressar melhor.

Irmãos que levam os balandraus da Loja para lavar, evitando crises de rinite coletiva, e tantos outros que, com gestos simples, dizem silenciosamente: eu amo meus Irmãos, eu amo minha loja, eu amo a Maçonaria.

De maneira atrevida, plagiarei Bertolt Brecht: há Maçons que incandescem um dia e são bons; há outros que resplandecem um ano e são melhores; há os que brilham muitos anos e são muito bons. Mas há os que iluminam toda a vida, e estes são imprescindíveis para nossa Ordem.
                                                                      
Duas décadas de compartilhamento do que aprendi com o único propósito de ofertar às Lojas material para o QUARTO DE HORA DE ESTUDO, ATIVIDADE OBRIGATÓRIA DE UMA LOJA MAÇÔNICA, e também uma salutar provocação dominical aos amados Irmãos. São artigos curtos e objetivos, a fim de dar espaço à pesquisa, entre o pouco que sei e o muito que desejo que os Irmãos se aprofundem sobre os temas.

Salamaleico - Robur et Furor
Fraternalmente
Sérgio Quirino
Minas Gerais Shrine Club