Você está preparado para ser Venerável Mestre?

Muitas vezes ouvi essa pergunta ser feita em Loja:
“Você está preparado para ser Venerável Mestre?”
Na maioria das ocasiões, a resposta vinha de forma imediata e quase sempre acompanhada de certa indignação:
“É claro que estou preparado.”
Alguns justificavam a resposta pelo fato de já terem ocupado todos os cargos da Loja. Outros destacavam seu domínio ritualístico, a capacidade de abrir e encerrar sessões sem consultar o ritual, o conhecimento das cerimônias ou a familiaridade com os aspectos administrativos da Oficina.
Entretanto, quando essa pergunta é feita, raramente ela se refere à capacidade de conduzir quarenta sessões ao longo de um ano maçônico.
Também não está relacionada apenas ao domínio da ritualística, ao controle da secretaria, à gestão da tesouraria ou ao conhecimento das normas da Obediência.
Tudo isso é importante, mas não é o que realmente define a preparação para o Veneralato.
A verdadeira questão é outra.
Você está preparado para liderar um grupo de homens que, por natureza, já são líderes em seus próprios ambientes?
Está preparado para administrar opiniões divergentes, vaidades, expectativas, frustrações e diferentes visões sobre o futuro da Loja?
Está preparado para ouvir críticas, receber cobranças, solucionar conflitos, lidar com insatisfações e continuar motivado mesmo quando seus esforços não forem reconhecidos?
Porque é justamente nesse ponto que muitos Veneráveis Mestres se perdem.
Assumem o cargo com entusiasmo, fazem o que precisa ser feito, dedicam horas incontáveis à Loja, sacrificam parte de sua vida pessoal e familiar, enfrentam dificuldades que poucos enxergam e chegam ao final da gestão exaustos.
Alguns saem decepcionados.
Outros saem ressentidos.
Há aqueles que passam a enxergar defeitos em tudo e em todos, como se a Ordem tivesse mudado durante o seu mandato e como se eles próprios não tivessem participado da construção da realidade que encontraram ao assumir o Oriente.
Talvez por isso seja tão comum observarmos um fenômeno silencioso em nossas Lojas.
Basta olhar para a galeria de ex-Veneráveis Mestres.
Quantos daqueles irmãos continuam presentes?
Quantos permanecem trabalhando ativamente?
Ou, quantos, apesar de permanecerem, tornam-se críticos das atuais administrações ou implantadores de um poder paralelo, colocando outros obreiros contra a administração.
Por outro lado, quantos continuam ocupando cargos, orientando os mais jovens, participando das comissões e contribuindo para a evolução da Oficina?
Infelizmente, em muitas Lojas, encontraremos diversos nomes de irmãos que se afastaram pouco tempo depois de entregarem o malhete.
Alguns cansados daquilo que chamam de “encheção de saco”.
Outros decepcionados porque o sucessor não deu continuidade aos seus projetos.
Há ainda os que simplesmente entendem que já cumpriram sua missão. Como se a contribuição de um maçom terminasse junto com o mandato. Como se houvesse ciclo final.
É justamente aí que reside um dos maiores equívocos.
Ser Venerável Mestre não é ocupar o cargo mais importante da Loja.
Ser Venerável Mestre é preparar-se para servir à Loja antes, durante e depois do mandato.
A função não existe para produzir Mestres Instalados.
Existe para produzir líderes resilientes e capazes de fortalecer a Instituição ao longo do tempo.
O verdadeiro teste de um Venerável Mestre não acontece durante sua gestão.
Acontece depois dela.
Acontece quando ele deixa o Oriente e continua trabalhando.
Quando troca a autoridade formal pela influência moral.
Quando abandona o protagonismo e assume o papel de conselheiro.
Quando ajuda seu sucessor mesmo que ele siga caminhos diferentes daqueles que teria escolhido.
Quando compreende que a Loja não lhe pertence e que cada gestão representa apenas um capítulo de uma história muito maior.
Salomão tornou-se símbolo de sabedoria não apenas pelas decisões que tomou enquanto governava, mas pelo legado que deixou.
Talvez essa seja uma reflexão importante para todos nós.
A sabedoria que inspira o Venerável Mestre deve permanecer quando o cargo termina.
O avental muda. O lugar ocupado em Loja muda. O malhete passa para outras mãos. Mas o compromisso com a Ordem deve permanecer.
Por isso, todo irmão que deseja chegar ao Oriente deveria fazer a si mesmo uma pergunta mais profunda.
Não se deve perguntar apenas se está preparado para ser Venerável Mestre.
Deve perguntar se está preparado para continuar servindo depois de deixar de sê-lo.
Porque a longevidade de uma Loja não depende da qualidade de um único Venerável Mestre. Depende da capacidade de seus antigos Veneráveis permanecerem presentes, ativos e comprometidos com as gerações que virão.
Homens que não enxerguem o cargo como um ponto de chegada, mas como uma etapa de uma jornada de serviço.
E quando um irmão estiver verdadeiramente preparado para isso, então não deverá temer assumir o Oriente.
Aguinaldo Oliveira
Mestre Maçom (Instalado)– A.·.R.·.L.·.S.·. "Eloy Chaves" Nº 868 - Grande Loja do Estado de São Paulo- GLESP



